5.7.09

a educação sentimental

Num livro de História esbarro numa transcrição de um documento de 1269 que atesta que nesse ano os burgueses de Coimbra se reuniram não por força nem por engano, mas de sua livre vontade. Foi o mesmo com a sua partida, compreendi: não por força, como insinuou, nem certamente por engano, mas simplesmente de sua livre vontade. Tal e qual os burgueses de Coimbra, poderá um dia contar aos netos.

1.7.09

bar refaeli



Como explicou Choderlos de Laclos em 1783 no seu 'A Educação das Mulheres':
O rosto atrai, mas é o corpo que prende.

cinco dias

Através de um sms, sou informado pela operadora que faltam apenas cinco dias para terminar o contrato do telemóvel. Cinco dias. Cento e vinte horas. Sete mil e duzentos minutos. Nunca um prazo de uma coisa foi tão simbólico para um outro campeonato.

28.6.09

m'sieur

A rua deserta e silenciosa, devido à hora avançada da noite, faz com que o feixe de luz saído da porta que guarda ganhe um protagonismo inesperado e místico, como um pórtico para o desconhecido visto num «série B» dos anos 50. Pode ler-se a um canto da fachada, em pequenas letras de néon encarnado, o nome do bar acompanhado das palavras Strip Club. Noite após noite a sua figura melancólica revela-se encostada ao umbral lacado, impedindo-se assim de tombar sobre si mesma. Com a proximidade dos meus passos a mancha em contraluz vai-se tornando perceptível: uma fisionomia madura, vincada pelas rugas e consequentemente uma expressão absorta e plana; desinteressada. Atrás de si percebe-se um pequeno lobby decorado com espelhos e metais dourados, antecâmara da acção cuja música trespassa remotamente para o exterior. Não há gente, não há movimento; apenas este porteiro nocturno de um local vazio e esquecido. Caminho devagar, silencioso e concentro-me na sua postura. Pela idade aparente já viu muito e de tudo, seguramente. Há algo nele que acusa cansaço. Demasiadas noites, demasiados copos, demasiados maços de tabaco, demasiada solidão. Encostado, olha o chão distraidamente enquanto fuma. Não dá por mim até dois metros da porta, momento em que levanta a cabeça. Cumprimento-o com um aceno e sigo rua fora o caminho de casa, ficando sempre a pensar que tenho unicamente duas opções para enquadrá-lo: como uma personagem solitária do Realismo Poético de Jean Renoir, ou como uma possível projecção do meu próprio futuro. Cauteloso, fico-me somente pela primeira.

a midnight valium for a good night's sleep

Meio adormecido, imaginei que tinham passado vinte anos até voltar a ver-te. O momento do suposto reencontro perturbou-me. Não por estares mais velha — nem isso parecias estar — e reflectires assim o meu próprio envelhecimento, mas por ver que tinham passado vinte anos sem ti. Vinte anos em que a vida me tinha privado de algum sentido dado pela ilusão —o pouco que como mortais nos resta— daquilo que comummente conhecemos como «estabilidade». Agora, desperto e lúcido, compreendo: afinal não foi um sonho pois tu desististe, desapareceste e já não estás; afinal «estabilidade» é coisa que tão-pouco existe. Ou se sim, nunca a longo-prazo.

23.6.09

das mulheres de trinta

São interessantes as afinidades entre Maria, de 'Play it as it Lays' de Joan Didion, e Marta, de 'Transa Atlântica' de Mónica Marques. Embora personagens pertencentes a universos distintos — geográficos, geracionais, culturais — as narrativas apanham ambas numa mesma faixa etária: a casa dos 30. Nesse específico período etático de uma mulher, que vai do golpe de misericórdia final na inocência ao primeiro vislumbre da crueldade do envelhecimento, a maioria já amou, deixou, sofreu, fodeu ou gritou. Umas, muito de tudo; outras, um pouco mais do que nada. Algumas foram ainda mães, sozinhas pelo caminho, sobretudo, ou muitas vezes nele tão mal acompanhadas. 'Maria' e 'Marta', cada uma à sua maneira, possuem gravado o código sentimental de um percurso universal e contemporâneo; feminino.

A uma aparente independência de costumes & vícios, legado da Modernidade, subsiste da mesma forma uma prisão consequente da imutabilidade da condição humana: a necessidade de afecto. Há também memórias — há sempre memórias — que despoletam no Presente receios e confusões; ou erros e omissões. As mulheres de trinta já sabem o que querem e muitas vezes também já o tiveram para consequentemente o perderem. Ou assim o crêem. Por culpa de incertezas, suas e de outrem, de abandonos, de desinteresses ou até das sogras, como algumas o fazem notar.

Em resumo e apesar de tudo, as mulheres de 30 ainda acreditam. Mas só mais uma vez.

16.6.09



Charlotte Rampling —como Jacqueline Bisset, Jessica Lange, Angie Dickinson, Sophia Loren e muitas outras— é a prova de que uma mulher pode ser atractiva e desejável em quase todas as fases da sua vida. De barely legal a housewife, de milf a mature.

a blogosfera amputada

O Estado Civil terminou no princípio deste ano. Como de certa forma a ele se deveu o meu interesse em entrar e mais tarde em participar na blogosfera, pelo seu exemplo de conduta e pela atracção dos seus conteúdos intimistas e reflectivos, isto faz com que em parte me sinta uma estranha espécie de órfão. Sem o Estado Civil —que é o mesmo que dizer sem o Pedro Mexia— o quotidiano da blogosfera já não poderia ser o que foi: numa assentada perdeu esprit & reflexão. Mas embora «órfãos» somos igualmente «adultos» e mentalizamo-nos assim a viver com isso. Como um ferido de guerra vítima de uma amputação.

somehow still related with 'lust'

Quando descobri o trabalho fotográfico de Dash Snow, o enfant-terrible da underground-art nova-iorquina, numa livraria de esquina da Village, balizei-o num campo conceptual entre a exploração de uma familiaridade trágica e marginal, de Nan Goldin, a exposição sexual fria e provocadora de Terry Richardson e o registo da decadência física (e moral) de Boris Mikhailov. Por essa altura os trabalhos fotográficos do (depois) cineasta Larry Clark — 'Tulsa' e 'Teenage Lust' — ainda me eram desconhecidos. Quando deixaram de o ser, notei que são esses mesmos a maior influência de fundo no body-of-work de Snow. O que demonstra que já nem na irreverência há muita originalidade.

15.6.09

mature lust

Charlotte Rampling, por Juergen Teller

average lust

You wanna know something?
You're not in love. You're in lust.

Fox (Christopher Walken) para X (Willem Dafoe) quando este último lhe diz que vai fugir com Sandii (Asia Argento) por estar apaixonado por ela. Há muita verdade, naquela simples contra-resposta de Fox. Em 'New Rose Hotel' (1998), de Abel Ferrara. Para prevenir muito boa gente de futuras confusões.

teenage lust

Pelo facto de há alguns dias atrás ter feito outra alusão à obra do algo andrógino (no estilo) Bret Easton Ellis, acrescento agora que se há imagens que ilustram de uma forma precisa o contexto psico-social do seu 'Less than Zero', (1987), essas serão seguramente as do já por aqui comentado álbum 'Teenage Lust', de Larry Clark. Como se nao bastasse 'Less than Zero' ser também sobre uma certa luxúria na adolescência —uma realidade física— há uma outra realidade —podemos chamar-lhe moral— que enfatiza a co-relação entre as duas obras. A fotografia 'They met a girl on acid in Bryant Park at 6 am and took her home to fuck her', de Clark, é disso um bom exemplo. Não pelo sexo explícito ou a aparente violência do gangbang involuntário nela contido, mas pela utilização do corpo de outrem para um interesse pessoal e unilateral, descartável e instantâneo. Como no livro de Ellis, uns (corpos) servem a outros apenas nessa perspectiva.

12.6.09

la génération perdue

A Lost Generation e os seus estilhaços têm hoje um espectro mais alargado do que o inicialmente literário nas sucessivas correntes conceptuais. Surge agora como um movimento elíptico sentido novamente na vida e no corpo, longe do asilo teórico das páginas impressas, cujos autores demonstram uma estranha e incómoda actualidade. Não somos assim os filhos de uma geração perdida, legado abstracto de outros anteriores a nós, mas uma nova geração perdida. Também percorremos o mundo e da mesma forma nos decepcionamos. A festa é a máscara que disfarça a desilusão.

8.6.09

duas fotos para Didion



A primeira, de Philip-Lorca diCorcia, e 'Sunset Strip', de Ed Ruscha, (do livro 'Every Building on the Sunset Strip', 1966).

learning from las vegas

All day, most of every night, she walked and she drove. Two or three times a day she walked in and out of all the hotels in the Strip and several downtown. She began to crave the physical flash of walking in and out of places, the temperature shock, the hot wind blowing outside, the heavy frigid air inside. She tought about nothing. Her mind was a blank tape [...]. When she finally lay down nights in the purple room she would play back the day's tape, a girl singing into a microphone and a fat man dropping a glass, cards fanned on a table and a dealer's rake in closeup and a woman in slacks crying and the opaque blue eyes of the guard at some baccarat table. A child in the harsh light of a crosswalk on the Strip.

in 'Play it as it Lays', (1970), de Joan Didion, pag. 170.

4.6.09

ainda de 'play it as it lays'

O que me pareceu mais curioso nesta obra de Didion foi a aproximação a dois autores por aqui particularmente estimados: C. Bukowski e Raymond Carver, ambos seus contemporâneos. Porém, esta aproximação não é suficiente para inserir Didion no Dirty Realism que caracteriza os outros dois. Por um lado, não é crua e despojada como Bukowski; e por outro, ao contrário das personagens de Carver, Maria é dotada de um impulso de sobrevivência. Como aqui escrevi, em Carver não há luta ou heroísmos estóicos, há apenas conformismo. Com Maria (ou em Didion) há muito mais do que isso.

de 'play it as it lays'

Embora inicialmente tenha sido mais receptivo a alguma influência de 'Play it as it Lays' (1970) nas gerações posteriores (leia-se em Bret Easton Ellis) do que àquelas a que Joan Didion esteve sujeita, vejo agora, quase completada a leitura, que são as últimas as mais marcantes. Mas não só. Na construção do mundo envolvente da sua personagem principal —Maria ("that is pronounced Mar-eye-ah")— estão presentes os resquícios da catarse colectiva da Lost Generation: uma certa desacreditação moral aliada à perda da Fé do legado judaico-cristão. A vulnerabilidade emocional da protagonista nasce (em parte) desta consciência intrínseca de que a batalha estará sempre perdida. Mas se esta influência é sentida apenas nas entrelinhas, mais notória e visível é uma outra que guardo ainda como uma referência maior da ficção norte-americana do pós-guerra: 'The Deer Park' (1955) de Norman Mailer. São múltiplos os fragmentos visuais de 'Play it as it Lays' que remontam para os cenários do romance de Mailer. O social, para começar, no qual as personagens se movimentam igualmente no pouco escrupuloso meio da movie industrie. Mas igualmente o paisagístico que contrapõe a aridez do deserto à metrópole urbana, complexa e dispersa. Tal como em Mailer, também este contexto físico funciona como uma analogia às questões sentimentais e afectivas.
John Wayne em 'Hondo'

O homem, a máquina e a estrada.
Novo tríptico visual de uma velha solidão.

learning from los angeles

Quando os grandes planos urbanísticos da West Coast norte-americana começaram a ser desenvolvidos em prol dos automóveis e da sua extraordinária capacidade de vencer novas distâncias, estes últimos elevaram-se a anónimos protagonistas do quotidiano. É por isto interessante encontrá-los nessa mesma condição de imprescindíveis e paradoxalmente invisíveis em terrenos como os da Literatura e do Cinema. Também a relação das pessoas com a própria solidão foi por eles alterada, acentuando o conceito de deriva urbana. Em 'Play it as it Lays', que remonta ao período de uma odisseia pessoal de uma mulher interrompida por flashbacks, a presença do automóvel, embora muito subtil, é sentida exactamente nestes termos. Sendo máquinas e por isso banais e desprezíveis, são ao mesmo tempo cápsulas de refúgio, espera, decisão, fuga, ou esquecimento. Acima de tudo, conferimos-lhes inconscientemente uma estranha e familiar camaradagem. Como nos tempos dos westerns se via acontecer com os cavalos.

os dias da máquina

proporcionam a reciclagem de uma conhecida litania católica:
O Carro esteja convosco. Ele está no meio de nós.

1.6.09

o seu duplo perene

first impressions

Em 'Play it as it Lays' (1970), da norte-americana Joan Didion (1934), encontramos traços específicos de uma geração literária amargurada, política e emocionalmente, e em permanente estado de introspecção e auto-avaliação. No entanto, numa primeira impressão, não recolho as suas influências, como a Lost Generation, ou contemporaneidades, como o (à altura) recém-formado New Journalism. Recolho, isso sim, algo que poderíamos classificar como aquilo que virá a ser o seu legado; ou, porque não, a sua própria influência a terceiros. Neste caso concreto, podemos ver 'Play it as it Lays' como uma incursão preparatória ao terreno de Bret Easton Ellis uma década depois. Ou seja, muitas cabecinhas descompensadas num plateau social da West Coast de Sex, drugs and fuck'em all.

the coke bottle

"Let's fuck", the actor said from the doorway.
"You mean right here."
"Not here, in the bed." He seemed annoyed.
She shook her head.
"Then do it here," he said. "Do it with the Coke bottle."

'Play it as it Lays', (1970), de Joan Didion.

26.5.09

la comédie humaine



Fotografia de Wayne Liu, outra vez, que ao juntar a multidão, os gritos e uma pulseira com um coração ao gesto universal do cornudo consegue assim, de uma forma figurativa, resumir simbolicamente em apenas uma imagem toda a obra literária de Balzac. Um requintado pós-realista, este sino-americano.

das Penélopes

Ulisses, vinte anos depois, regressou à sua.
Bardem, em menos tempo do que isso, também.

25.5.09

made in alcobendas

Comprei há uns dias um serrote para madeira e enquanto estava ontem a fazer uma coisa armado em carpinteiro dei conta do Made in Alcobendas, Spain gravado na lâmina brilhante. Para além de produtora de ferramentas para a mui ancestral, doméstica e masculina arte da bricolagem, esta pequena localidade é também conhecida como a terra-natal das (aqui sobretudo) hiper-sensuais Penélope e Mónica Cruz. Como diz o slogan camarário: Alcobendas, un modelo de ciudad. Concordamos, evidentemente.

21.5.09

esplendor na relva

Nos anos anteriores à minha partida para o estrangeiro, a Cinemateca, mesmo durante os largos meses em que por motivo de obras as projecções eram no Palácio Foz nos Restauradores, era já um dos meus locais de eleição. Guardo inclusive, e religiosamente, os papéis-craft da programação de Janeiro de 2001 a 2006, que por volta do ano 2002 sofreram uma ligeira alteração no design gráfico. Para melhor, pareceu-me. Guardo todos os meses, salvo um; por causa de uma antiga namorada que o rasgou na Avenida de Roma em frente ao Frutalmeidas. De todos estes anos, para além de filmes e ciclos, também me recordo dos textos fotocopiados que acompanhavam as projecções. Textos construídos em volta de uma paixão pelo medium; histórica e conceptual. Textos que me ajudaram a ver o então invisível, a compreender o (muitas vezes) incompreensível. Textos que elevavam os detalhes, os pequenos-nadas e revelavam aquilo que aprendi a procurar e respeitar como a outra face do cinema. Textos de João Bénard da Costa.

Quando há pouco conversava com o meu Pai sobre a morte de JBC compreendi verdadeiramente a dimensão do seu alcance pedagógico intergeracional. Foi seu professor no Conservatório de Lisboa nos anos 1970, fiquei a saber. De História da Cultura, acrescentou.

Pelos seus textos, foi meu também. Trinta anos depois.

no tempo do cinema

Documentario de José Carlos Santos sobre a vida de João Bénard da Costa.
Hoje, dia da sua morte, na 2.

a midnight valium for a good night's sleep

Quando o descobri, soube que já o conhecia sem nunca o ter visto. Nos manuais de arte contemporânea, ainda adolescente, ou ao vivo no museu, já adulto. Muito antes daquela tarde em que fugimos do calor apocalíptico da Fith Ave e nos refugiámos no ar fresco dos mármores do Met. Lá estava ele à nossa frente, como eu o esperava, outra vez só para mim — só para nós — na hora-morta do museu em dia de purgatório urbano. A arcada e a praça-amarela, o abandono, o estio. Tudo antes de ti e ali; tudo muito atrás na minha infância. A Biblioteca Municipal e o terrain-vague deserto entre mim e ela; cem passos de solidão, cem passos de criança. Lá dentro o Nils Olgersson e a sua viagem de ganso pela Suécia. Ou as histórias de Grischka e do urso, de René Guillot, num remoto e exótico cenário de esquimós e neve, ambos tão distantes da minha breve realidade. As paredes altas revestidas de velhas edições. O ar fresco, o cheiro a papel, a forte luz exterior. O silêncio. Sentado numa cadeira sem que os pés tocassem no chão e esperar, como em todos os dias daquele princípio de Verão, que chegassem as seis da tarde. É isto que para mim é Chirico. Nostalgia. Muito antes de ti.

17.5.09

desperate housewife

'Intentions of Murder', de Shohei Imamura

Em 'Intenção de Matar', (ou 'Akai Satsui', 1964), Shohei Imamura debruça-se sobre a história de Sadako, uma mulher de meia-idade e sem encantos, casada, enganada, mãe e dona-de-casa que é violada durante uma ausência do marido e do filho. Sadako estranhamente encontra no violador uma ruptura com a apatia da sua vida e cria uma relação de assiduidade e continuidade com ele, procurando posteriormente matá-lo como um acto (mais psicológico do que físico) libertador. Logo à partida, não encontramos neste filme de Imamura mais do que laivos da sua máxima por aqui transcrita há uns tempos relativa ao seu interesse "na relação da parte inferior do corpo com a parte inferior da estrutura social". Depois compreendemos que, no seu todo e bem lá no fundo, é claramente (e muito) isso mesmo.

seven knots

Desde aqueles dias de Verão e de Inferno na Upper New York Bay, onde o Hudson e o East River convergem ladeados pelas Ellis e Governors Islands, que, por circunstâncias da vida —e são sempre muitas as circunstâncias da vida— não tinha voltado ao leme de um veleiro. Foi por isso muito bom voltar a fazê-lo ontem, dia em que a brisa ajudou a buscar a adrenalina desses outros tempos e a despertar assim a lembrança de uma relação única traduzida por um não-tão original quadrinómio: homem, barco, vento e água.

14.5.09

the aesthetics of reality, take 2

Ontem, numa rua perpendicular à do meu estúdio, deparei-me com uma cena interessante. Uma moto de grande cilindrada enfiada debaixo de um carro-patrulha e um aparato policial que metia respeito. O que se passou, perguntei a um popular na esquina. Foram uns ladrões, respondeu, foram uns ladrões que roubaram uma joalharia e na fuga espetaram-se contra o carro da polícia. Apanharam-nos todos, concluiu radiante. A estética da realidade, dizia eu. Aqui um bom exemplo num sentido diferente.

the aesthetics of reality

Andar constante e inconscientemente a equilibrar na minha cabeça o color balance de quase tudo o que toco —da salada de frutas ao dentífrico— quer dizer apenas duas coisas: 1) demasiadas horas agarrado ao photoshop; e 2) demasiadas horas agarrado ao photoshop. Ou então quer apenas dizer que a chamada estética da realidade poderia ser muito melhor do que aquilo que é.

de yoshishige yoshida

É já com alguma dificuldade que consigo escrever Yoshishige, o primeiro nome do realizador japonês. Depois fui mais longe e tentei dizê-lo. Não me saiu nem à segunda.

ainda de 'as termas de akitsu'



Toichiro Narushima, o director de fotografia, conseguiu em 'Akitsu Onsen' (1962) o mesmo que Yoshio Miyajima conseguiu na Parte I da 'Condição Humana' (1959) de Masaki Kobayashi: a paisagem é claramente a terceira personagem. E este fotograma não ilustra nem metade daquilo que estou a dizer.

as termas de akitsu



De 'As Termas de Akitsu' (Akitsu Onsen, 1962), de Yoshishige Yoshida, podemos dizer que é sobretudo um drama romântico. No final da guerra, Shinko, ainda adolescente, conhece um militar tuberculoso e torna-se a sua enfermeira. Eventualmente ele cura-se e entretanto apaixonam-se; mais tarde ele parte, abandonando-a. O seu regresso às termas de Akitsu e a Shinko é esporádico e conturbado nos 17 anos seguintes. A história culmina numa poderosa cena dramática do suicídio de Shinko, já uma mulher madura, perante o desespero de um homem que em tantos anos nunca soube o que quis.

É-me difícil encaixar 'Akitsu Onsen' no contexto da Nova Vaga Japonesa. O ambiente de pós-guerra e de múltiplas mutações sociais torna-se quase supérfluo à narrativa. Pouco interessa e nada é explorado. O que parece realmente interessar a Yoshida é a história de amor numa esfera de tranquilidade burguesa; a mutilação sentimental e o sofrimento pela desilusão. Uma luta a dois; de caracteres e de força interior. Em nenhum momento se sente uma incursão a temas como a violência física gratuita, o sexo mecanizado, a reivindicação política ou a personagens de uma marginalidade social. Talvez por isto sinta que 'Akitsu Onsen' pertence menos a uma nova vaga do que à anterior (e paralela) escola clássica, dramática e humanista do cinema japonês. O que não invalida ser um grande filme.

11.5.09

those ghostly traces, photographs

Copyright Wayne Liu

A fotografia é do sino-americano Wayne Liu mas pelo ângulo em relação à figura feminina, a pose desta e até o contexto urbano bem poderia ser um fotograma de Naruse.
Se Naruse tivesse filmado nos anos 80 e fosse chinês.

10.5.09

about jogging

Eu sou David. Golias é a preguiça que há em mim.

da arte e do sentido (2)

Sou do género de gajo que quando tem tv —embora quase nunca tenha tv— guarda a merda do telecomando sempre no mesmo sítio. Ou seja, sou por isso um estruturalista inveterado. E isso faz muito sentido.

9.5.09

da arte e do sentido

Quando me perguntaram sobre as minhas preferências na Arte Contemporânea portuguesa não tive grandes dúvidas —embora aprecie igualmente outros, naturalmente— em apontar três nomes para três novas gerações: José Pedro Croft (1957); Gil Heitor Cortesão (1967); e Manuel Caeiro (1975). Focando-nos nas obras dos três artistas, podemos dizer que a preferência faz todo o sentido, se é que preferências têm de fazer sentido. Do construtivismo mais abstracto de Croft ao racionalismo figurativo de Caeiro e passando pela memória modernista de Heitor Cortesão, a arquitectura, ou referências (por vezes) remotamente ligadas à arquitectura, são, a par de estilizadas contextualizações espaciais, elementos comuns a todos os trabalhos. A preferência faz assim todo o sentido, mais uma vez, se é que tem de fazer sentido. Mas é quem me conhece que diz que faz mesmo todo o sentido.

7.5.09

those ghostly traces, photographs



É extraordinário o poder das imagens na cultura urbana. Não há quem olhe para esta foto e não anteveja a tragédia das quatro personagens. O disparo a longa distância, a cabeça a abrir-se em duas partes pelo impacto do projéctil, os consequentes gritos. Por isso todos estes sorrisos ganham aqui uma outra dimensão. É esta a fragilidade da condição humana. Uma grande merda, mas é o que é.

some people have analysis; I have Utah

Conheci uma pessoa que também dizia isto. Exactamente o mesmo, descubro agora, que disse o Robert Redford há muitos anos atrás. A fuga para o campo; ou a chamada contra-terapia pós-moderna.

a arte da fuga

Alguém que lê este blogue e ao denotar, por um lado, o marasmo dos últimos dias, por outro a obsessão temática, espirituosamente pergunta-se (e a mim também) se não terei —e trancrevo— fugido com a Emmanuelle? Ainda há bom humor em tempos de crise.

4.5.09

Emmanuelle; definitivamente com maiúscula

A busca de imagens para «Emmanuelle» é bastante interessante. Aparece a Seigner, a Béart e a Vaugier. Só por isto, o nome inteiro deveria ser em maiúsculas.

30.4.09



Depois de ver atentamente a composição estética da cena da loira violada pelas três chinesas de cabelo preto e vestidos encarnados — ou a cena da casa de massagens com três chinesas nuas com os corpos cheios de óleo — não tenho quaisquer dúvidas que Francis Giacobetti, o realizador, conhecia o 'Sing a Song Sex', (1968), do mestre da nova-vaga japonesa Nagisa Oshima. É que isto de filmar fetiches, como se compreende, não se aprende assim do pé para a mão.

Emmanuelle; com maiúscula (3)

'Emmanuelle, L' Antivierge (2)' (1977) acompanha a viagem de barco de uma mulher, Emmanuelle, até à Ásia para juntar-se ao marido, um engenheiro destacado em Hong-Kong. Sendo um filme de época, podemos dizer que o casal é moderno, o que significa que cada um vai com quem bem lhe aprouver. No entanto, as aventuras individuais são relatadas e partilhadas, servindo posteriormente de excitante mental e carburador físico aos dois; ou três, ou quatro. Ciúmes e encornanços são coisas de gente mesquinha e popularucha. Liberais com estilo são como a aristocracia de Laclos: têm muita largesse.

Emmanuelle; com maiúscula (2)

Dos diálogos do filme 'Emmanuelle 2' podemos dizer o mesmo que dos do 'Emmanuelle 1': são ao mesmo tempo uma merda e muito bons. Uma merda porque são meio pirosos; muito bons porque são em francês. E em francês uma mulher também dá sempre muito tesão.

Emmanuelle; com maiúscula

Os títulos começam com 'Io, Emmanuelle', de 1969, e no ano 2004 ainda há vestígios da libertina francesa pelo mundo do erotismo cinematográfico. Já foi branca (quase sempre), preta (1976), asiática (1977), sedutora (1978) e a rainha de Sados (1979). Esteve em África (1976), Cannes (1985), Veneza (1993), Rio de Janeiro (2003) e também no Inferno (1982), de onde escapou no ano seguinte como ilustra o empolado título 'Emmanuelle Escapes from Hell'. Em 2000 estava no Paraíso e curiosamente nesse mesmo ano chegou a ir ao espaço. Nos cerca de 60 títulos, que incluem episódios TV, foram várias as mulheres que encarnaram Emmanuelle. Quanto a mim, só vi dois com a holandesa Sylvia Kristal. O que, acrescento, com outras interpretações de mulheres como Erika Blanc ou Laura Gemser me parece uma verdadeira lástima.
Enfim, não se pode ir a todas.

27.4.09

those ghostly traces, photographs



Na manhã de 8 de Junho de 1968 o corpo de Robert Kennedy era transportado de Nova Iorque para Washington de comboio. Centenas de milhares de pessoas alinharam-se ao longo da linha de caminho-de-ferro para prestar uma última homenagem a Bobby. A bordo ia o fotógrafo Paul Fusco (1930), que registou o trajecto num conjunto de fotografias que deu origem, o ano passado, ao livro 'RFK'. Percorrendo as suas páginas somos confrontados com o luto de uma nação, mas da mesma forma com um retrato dos seus grupos sociais. Período de grande mudança nos direitos humanos na América — passados apenas quatro anos do Civil Rights Act de 1964 — a comunidade negra tinha em Bob Kennedy um empenhado aliado pela igualdade e contra a segregação racial. Chamavam-lhe 'Blue Eyes, Soul Brother' e mais do que qualquer outra chorou fortemente a sua morte. No livro, sente-se isso muito bem.

25.4.09

that can (and will) be used against you

Numa relação, vírgula, sentimental, há que ter tento na língua quanto à manifestação de impressões pessoais. Seja na forma de um reparo sincero ou de uma provocação pueril, de uma confidência passada ou de um desejo para o porvir, tudo o que se diz fica gravado na memória de quem escuta. Os dias passam e estas impressões pessoais — umas verdadeiras e sentidas, outras insignificantes — tornam-se numa espécie de lascas subcutâneas emocionais. Não se vêem, mas continuam à espera de sair sob pressão. Quando tal acontece, geralmente numa discussão, rasgam a pele e saltam para a conversa num tom quase sempre descontextualizado, quase sempre cruel e definitivamente sempre chantagista. Para evitar o desconforto, ou a injustiça, talvez seja prudente seguir desde o início o conselho do conhecido 'Miranda Warning': you have the right to remain silent. Anything you say can and will be used against you in a court of law.

24.4.09

a geração de 70

Quando o dogmático conceito dos chamados objectivos de vida começa a fazer sentido é sinal de que está tudo perdido. É sinal de que a melancólica satisfação da burguesia se instalou dentro da alma. E com ela a apatia criativa e aventurosa que reduz os homens a espirituosos & eloquentes vegetais.

23.4.09

the lower part

Nuberu bagu, ou a Nouvelle-Vague japonesa, como todas as novas vagas revolucionou e questionou o medium. Técnica e conceptualmente. A par de Oshima e Suzuki, os que conheço melhor, há um outro nome que me desperta um particular interesse no meio de todos os outros: Shohei Imamura. Treinado na escola do drama burguês (e maioritariamente feminino) de Ozu —do qual foi aprendiz— e numa estética de câmara minimalista e equilibrada, Imamura rompeu com os seus pressupostos iniciais interessando-se pelo bas-fond de Tóquio e Osaka e pelas suas personagens de putas, proxenetas e pornógrafos. Os seus filmes são sujos e provocadores. Resta dizer que um homem que afirmou estar interessado "na relação da parte inferior do corpo com a parte inferior da estrutura social" só podia mesmo ter toda a minha simpatia.

17.4.09

a magna magnani



Mas seu, o meu preferido continua a ser 'Mamma Roma'.

da verdadeira essência

'Bellissima' (1951), terceira longa-metragem de Luchino Visconti, é amplamente inserida no Neo-realismo Italiano. De facto, não há dúvidas de que a sua realização se insere no período final da identidade neo-realista mas, à partida, esta obra de Visconti diverge da corrente pelo carácter satírico e humorístico. O neo-realismo habituou-nos a um estilo documental que expõe cruamente a realidade social do pós-guerra. Fá-lo em diversos planos, que vão da denúncia da miséria à reconstrução/transformação física da cidade, e onde a carga dramática é (quase) sempre directa e despojada de artifícios. Em 'Bellissima' também se encontram elementos do neo-realismo, vero, contudo existe paralelamente um filtro atenuante dado pelo tom de comédia que a separa do estilo purista e documental. No entanto este tom, vamos compreendendo no desenvolvimento, alivia uma intensidade melodramática. Entre risos, Visconti apresenta-nos um mundo grotesco.

Mark Shiel, no seu 'Italian Neorealism, Rebuilding a Cinematic City', reconhece em 'Bellissima' (pag. 93) marcas do neo-realismo, embora o seu registo de light-hearted comedy (palavras suas) a afaste da obra (anterior) geralmente politizada de Visconti. Por conseguinte, pode subentender-se, será menos relevante para a identidade da corrente. Inicialmente tive a mesma impressão que Shiel. Porém, no desenrolar do filme, o realismo das discussões reles e grosseiras e das suas personagens fez-me mudar de opinião. O suficiente para dizer agora que estar privado de 'Bellissima' significa estar privado, num contexto vernáculo e humanista, da verdadeira essência do neo-realismo italiano.

15.4.09

ainda há piratas



Robert Louis Stevenson agradeceria.

na sua maioria

Transcendentalmente, o Acaso é universal e omnipresente; tal e qual Deus, dirá Santo Agostinho. Acções e consequências advêm dele. Como conceito abstracto e metafísico, o Absurdo, em parte efeito do Acaso, é mais inspirador e extraordinário. Todos estamos à mercê de uma perpétua casualidade, ou dos tais actos inesperados que produzem mudanças — como em Bresson por exemplo — mas esta casualidade raramente é absurda — como o é em Camus ou até em Paul Bowles (veja-se 'A Distant Episode'). O resultado do Acaso é por isso mesmo, na sua maioria, nada mais do que banal e ordinário. Como as próprias vidas; ou a grande parte delas.

14.4.09

remember, thou art only a man (2)

Realmente na Glória, essa volátil, breve e perigosa partida do destino, convém não esquecer que somos apenas homens. Mas no Fracasso tão pouco convém esquecer que por ele acontecer não deixamos de o ser. Ao fim e ao cabo, o único que não perde é Deus.

remember, thou art only a man

No épico 'Quo Vadis' (1951), de Mervyn LeRoy, o general Marcus Vinicius regressa vitorioso das campanhas no estrangeiro e entra em Roma triunfante diante de Nero e da multidão. Atrás de si, na mesma quadriga, um homem segura-lhe a coroa de louros em ouro acima da cabeça. E de tempos em tempos, no meio do êxtase do Povo, recorda monocordicamente a Vinicius: lembrai-vos, sois apenas um homem.

9.4.09

a golpada

Paul Newman e Robert Redford em 'A Golpada', (1973) de George Roy Hill

Telefonei agora para a Ordem e colocaram-me em espera enquanto transferiam a chamada para outro departamento. Ao mesmo tempo deram-me música de cortesia para me distrair. Apurei o ouvido e reconheci uma versão estilizada da banda sonora d'A Golpada', o thriller de intrujões-mor de George Hill. Pergunto-me o que poderá isto significar.

concentrado

Ao ver na Segunda-feira à noite o concerto da italiana Patrizia Laquidara no Cabaret Maxime não pude deixar de lembrar-me das palavras do meu padrasto, há mais de vinte anos, sobre a Lena d'Água quando a Lena d'Água cantava assim. É pequenina, mas canta muito boa.

6.4.09

de Laclos



Um. Dá conselhos às mulheres do mundo; no ano de 1783:
Receai igualmente o uso das bebidas espirituosas; uma pele lisa não esconde um sangue ardente; deixai às mulheres com poucos recursos este débil meio de incitar, pelo seu exemplo, a este género de deboche, na esperança de aproveitar os desejos que se lhe seguem e que elas não teriam sido capazes de suscitar. (pag. 125). [...] Não vos deixeis jamais dominar pelo mau humor. (pag. 126). [...] O rosto atrai, mas é o corpo que prende. (pag. 128).

Dois. Obviamente, leu Rousseau:
A natureza só cria seres livres; a sociedade só faz tiranos e escravos. Uma sociedade pressupõe um contrato; todo o contrato uma obrigação recíproca. Toda a obrigação constitui um entrave que contraria a liberdade natural; assim, o homem social agita-se continuamente nos fios que o prendem [...]. (pag. 99).

Três. Já tinha ouvido falar de Padma Lakshmi:
A acreditar nos relatos dos viajantes, as bailarinas do Industão sabem dar ao seu olhar, utilizando um pó, a expressão do prazer, mantendo nos olhos as lágrimas ardentes que a voluptuosidade faz verter. (pag. 130).

Transcrições em itálico de 'Da Educação das Mulheres', ensaio de Choderlos de Laclos.
Versão Portuguesa Edições Antígona; tradução de Luís Leitão.

5.4.09

das mulheres de choderlos de laclos

Falando de manifestos da emancipação feminina pela mão de homens não podemos deixar de lembrar Choderlos de Laclos. O escritor francês, autor do conhecido puzzle libertino 'As Ligações Perigosas', produziu no ano 1783 um ensaio (e antes disso um breve discurso) sobre a educação das mulheres. Tamanha teorização deveu-se ao facto de a Academia de Chalons-sur-Marne ter lançado um concurso, reflectindo o zeitgeist Iluminista, que questionava os intelectuais sobre "quais os melhores meios de aperfeiçoar a educação das mulheres?". Laclos, homem de armas e de letras, respondeu.

Primeiramente, no discurso, afirma suportado pelo seu silogismo 'onde existe escravatura não pode haver educação: em todas as sociedades as mulheres são escravas; portanto, a mulher social não é susceptível de educação' que não há assim nenhum meio de aperfeiçoar a educação das mulheres. Ou seja, tal não será possível enquanto a mulher estiver subjugada ao poder masculino. Por isso mesmo apela para que não se deixem "iludir por promessas enganadoras ou o socorro dos homens", pois, da parte destes, não há verdadeiramente qualquer intenção de transformação. Laclos foi peremptório: só se escapa à escravatura com uma grande revolução.

Meses mais tarde retoma o assunto do discurso e escreve o ensaio "Das Mulheres e da sua Educação", no qual contrapõe, numa influência nostálgica e rousseauniana, as vantagens da «mulher natural» perante a «mulher social». A liberdade, o poder e a felicidade foram retirados às mulheres pela Sociedade, pois os "homens pretenderam tudo aperfeiçoar e tudo corromperam". Mas Laclos não deixa de ser uma vítima dos seus tempos. No último capítulo, dissertando sobre beleza e conduta femininas, remete a mulher para uma esfera familiar e privada, acentuando acima de tudo e contraditoriamente o seu papel de objecto.

No final, o que conta é a intenção. Laclos pelo menos tentou.

3.4.09

das mulheres de naruse



Ao deparar-me com este fotograma de um filme de Mikio Naruse noto o quanto ele pode ser sinóptico da sua obra. O universo do cineasta japonês tem como núcleo de gravidade a figura feminina. E aqui, vendo-a sozinha num local íngreme e algo claustrofóbico, relacionamos a espacialidade como uma metáfora para outras realidades por si exploradas: emocional e social. O mundo das heroínas de Naruse, como o de todas as outras, não é fácil. Movimentam-se entre uma certa rigidez cultural e o desejo de mudança numa sociedade que carrega o trauma do pós-guerra. Os homens que as rodeiam são na sua maioria figuras moralmente fracas e derrotadas, despojos de uma guerra perdida, mas que não deixam de exercer a tradicional influência da «superioridade masculina». Naruse opõe-se ao lugar comum e as suas mulheres reagem, reivindicam, lutam. Procuram a independência aliada a uma contemporaneidade de costumes, mais justa e imparcial. Os homens bons são os que compreendem e facilitam esta liberdade e justiça. O cinema de Naruse pode assim ser visto como um manifesto da emancipação feminina; não de uma forma violenta ou ruidosa, mas sim discreta, sentimental e romântica. No fundo, no Japão do pós-guerra ou nos dias de hoje, continua a existir uma actualidade nas suas personagens de uma classe média universal. As heroínas de Naruse não deixam de ser em alguns pontos muitas das mulheres do século XXI. Talvez por isso ele seja tão apreciado pelo sexo feminino.

do cabedal (2)

Em 'Relâmpago' (1952), de Mikio Naruse, a mãe de Kyoko é uma senhora de sessenta anos com quatro filhos. Um de cada marido. Isso também é «cabedal».

do cabedal

Muito se comenta o cabedal do Clint Eastwood. Naturalmente que o senhor com 1,88m e quase octogenário tem uma constituição física impressionante, mas vejamos as coisas ainda de outro ponto de vista. Sete filhos de cinco mulheres diferentes e a actual, Dina Ruiz, é trinta e cinco anos mais nova. Isto sim, é verdadeiramente «cabedal».

31.3.09

ken e gata

ken Ogata em 'The Vengeance is Mine' (1979), de Shohei Imamura

men under the influence (5)

Na onstage conversation antes da projecção de 'Mishima: A Life in Four Chapters', no Film Forum, Paul Schrader explicava a escolha do actor Ken Ogata para representar o papel do irreverente autor japonês. Ken Ogata, dizia ele, criou através daquele filme do Imamura —não me recordo do nome— uma screen persona ligada à violência. 'Vengeance is Mine', gritou alguém do público. Sim, respondeu Schrader, esse mesmo.

30.3.09

men under the influence (4)

A passagem bíblica 'Minha é a vingança; eu retribuirei' (Romanos 12:19), que apela aos homens para não se vingarem deixando os actos de ira com Deus pois a sua justiça é divina, foi abertamente adoptada pela cultura urbana. Mas de uma forma distorcida. Se Deus vinga, por que não há-de o Homem, feito à imagem de Deus, igualmente vingar? Mike Hammer, de Mickey Spillane, vingou ('Vengeance is Mine', 1950) e Shohei Imamura ('Vengeance is Mine', 1979) vingou também.

men under the influence (3)

Shohei Imamura colaborou no início da sua carreira com Ozu, afastando-se posteriormente por duas diferenças conceptuais: 1) divergência na direcção de actores, criticando a rigidez do mestre; e 2) desinteresse pela temática de Ozu, um retrato íntimo e meticuloso da classe média do pós-guerra japonês. Da experiência comentou: “I wouldn’t just say I wasn’t influenced by Ozu. I would say I didn’t want to be influenced by him.”

29.3.09

men under the influence (2)

Philip Marlowe, criação literária de Raymond Chandler, é o estereótipo do hard-boiled detective. Durão, cínico, machista e mulherengo é da mesma forma (ou por conseguinte) um solitário desiludido. Este tipo de anti-herói que pela justiça se move muitas vezes à margem da Lei não é necessariamente uma novidade que aparece com Chandler —lembremo-nos de Dashiell Hammett muito antes— mas é com ele que define os seus contornos. A independência de Marlowe tornou-se uma imagem de marca para o género. No boss, no wife, no children; um cruzado por conta própria. Este género virá depois em (quase) todos os livros de Mickey Spillane, sendo no entanto explorado para lá de qualquer limite socialmente aceitável. Ou seja, Spillane pegou na receita para de seguida estalar-lhe o verniz.

men under the influence



Os primeiros minutos de 'Tsuma yo bara no yo ni' (é impossível decorar isto), de Mikio Naruse, sugerem imediatamente o que será o tom do filme. Esses breves momentos onde se mostra a cidade moderna e repetitiva preenchida pela multidão, com a câmara colocada abaixo do ponto de vista do observador, levam-nos a uma apresentação intimista da modernidade num Japão tendencialmente (e estou a referir-me àquele ano de 1935) tradicional. O filme acaba mesmo por explorar um tema íntimo e familiar —a separação matrimonial e o consequente estigma cultural— numa sociedade em transformação, indo assim ao encontro das impressões causadas pelas imagens iniciais. Mas o que mais me despertou o interesse nessa sequência foi a semelhança com a chapa de Walker Evans (direita), da série das ruas de Chicago de 1946. O efeito é o mesmo, de facto, embora o propósito para o dito efeito seja um pouco diferente.

das improbabilidades

No Largo de Camões, sexta-feira à noite, uma rapariga de franja escorregou mesmo ao meu lado na calçada. Prontamente eu e outro rapaz ajudámo-la a levantar-se. Foi uma pena nesse momento eu estar igualmente a falar ao telefone, caso contrário, quando ela agradeceu, ter-lhe-ia dito que há uns anos num dia de chuva aconteceu-me o mesmo mais ou menos naquele sítio. Uma improbabilidade. Ou talvez não, pois com estas calçadas luzidias que Deus nos deu tal coisa deve ali acontecer a muita gente.

27.3.09

reflexões durante o jogging

Aprendi-o em doze anos de râguebi mas a própria vida também me o poderia ter ensinado: derrota não é cobardia. Cobardia é outra coisa. Falta de comparência, por exemplo.

voyage autour de mon quartier

Ao viver actualmente numa paralela à Av. da Liberdade a minha vida distribui-se pela oferta local. Do Cabaret Maxime à Crew Hassan, da Cinemateca ao D. Maria II, da papelaria internacional do elevador da Glória ao jogging pelo Parque Eduardo VII. Estico-me até ao Chiado, quanto muito, e por vezes um pouco mais até à Bica, é verdade, tal como também não deixo de correr na margem do Tejo até Belém de vez em quando se me lembro. Mas o que me ocorre é que de todos os sítios por onde tenho vivido — do Restelo à Ajuda, da Gràcia ao Born, do Harlem ao Upper West, da East Village a Williamsburg — não deixei nunca de ser um bairrista preguiçoso. Ou se quisermos ser mauzinhos, assim como uma espécie de Henry Louis Mencken, podemos dizer que tamanha inércia para sair do bairro não é mais do que um reflexo do provinciano que há em mim. E alentejano, ainda por cima. O que pondo as duas coisas ao lado uma da outra nos leva ao conhecido ditado popular junta-se assim a fome à vontade de comer.

ontem, no Maxime

Ontem fui ao Cabaret Maxime para ouvir a 'Barbarella' do Samuel Úria mas este ao acabar a sua parte ainda não a tinha cantado. Meio furibundo, tive então uma surpresa depois do intervalo. Márcia, de seu nome. Cantou originais em português, inglês e francês, denunciando um certo cosmopolitismo sentimental e através de uma presença em palco sozinha com a sua guitarra provocou uma evocação visual e sonora que me levou, com as devidas distâncias, nada mais nada menos do que a Cat Power. No fim voltou o Úria ao estrado e escutei finalmente, já sentado num degrau a um canto, a 'Barbarella' a duas vozes. A caminho de casa fiquei a pensar o quão verdade é o facto de gostar de ouvir, como uma vez me disseram, senhoras que cantam muito baixinho e devagar.

25.3.09

of young women and pets



'Au hasard Balthazar' (1966) é o filme mais terno que conheço do cineasta francês. Embora Bresson continue a explorar temas que lhe são queridos, como o «Acaso», o «sofrimento» ou a «provação», há paralelamente uma apologia à ternura que não encontrei nos seus filmes anteriores. Não é feita de uma forma visualmente gratuita, pelo simples afecto da jovem rapariga, Marie, perante o olhar passivo e melancólico do burro, Balthazar. É uma ternura mais profunda do que a física, mais emocional do que táctil. Marie entrega-se a esta pois Balthazar — ainda que uma metáfora de Bresson para o Acaso — representa igualmente a bondade e o altruísmo. Ele nada pede em troca; está apenas lá. Quando Balthazar começa o seu percurso errático de dono em dono, Marie vai da mesma forma descobrindo o mundo sozinha. O amor, o desprezo, a derrota, a ganância, a violência são-lhe dados a conhecer aos poucos por todos aqueles que a rodeiam. De igual maneira Balthazar vai percorrendo as variantes da espécie humana, da barbaridade ao oportunismo. No fundo, a bela e a besta são o mesmo, casuais vítimas da crueldade do Homem e do Destino. Marie sente em Balthazar o refúgio. É por isso uma ternura diferente.

23.3.09

of single women and pets

Há um tipo de mulheres que gosta de cães mas se não tem espaço em casa para ter um, rapidamente se esquece e decide ter um gato. Ou pior, escolhe um cão que pelo tamanho pareça um gato. Geralmente o comportamento destas senhoras é o mesmo em relação aos homens. Querem uma coisa, mas se existir alguma contrariedade também ficam bem com outra. Uma ténue linha, esta que vai do pragmatismo à falta de exigência.

of single women and pets

É curioso constatar que uma mulher ao escolher um animal de estimação é influenciada por motivos relacionados com a falta de alguma das seguintes coisas: espaço para o bicho, tempo para o bicho ou tacto para o bicho.

21.3.09

o foyer também conta (2)



Histórica cena de 'Annie Hall' (1977) no foyer do antigo Walter Reade Theater da Film Society do Lincoln Center. Não necessariamente um local sóbrio e tranquilo, mas vê-se a rua lá atrás. E o foyer também conta.

do ritual de ir ao cinema, o foyer também conta

A questão do desaparecimento dos cinemas de rua em detrimento dos instalados em centros comerciais tem sido discutida por muitos cinéfilos nostálgicos. O que faz todo o sentido. Ir ver um filme ou ir ao cinema são coisas diferentes. Ir ao cinema é um ritual que incorpora diversos passos: a sessão e os momentos pré e pós. As salas encafuadas em superfícies comerciais herméticas e despersonalizadas têm a vantagem de oferecer melhores instalações (leia-se cadeiras e espaço entre elas) mas mesmo assim não as tornam atractivas para quem está na disposição de ir ao cinema como um ritual e não apenas com a finalidade de ver um filme.

Este parágrafo disperso não deverá ser interpretado como um ataque às salas em centros comerciais (valem o que valem e ainda bem que também existem), serve apenas de introdução conceptual para um elogio à «resistência» das salas tradicionais. A Cinemateca Portuguesa, embora seja um exemplo mais institucional, é, e como não poderia deixar de ser, o paradigma de uma sala de cinema propícia ao ritual: um curto passeio pela Avenida, a chegada a um local sóbrio e tranquilo, a projecção em si e o regresso calmo a casa ou ao carro (estrategicamente afastado para aproveitar o passeio). Junte-se a isto a qualidade de uma programação variada (cinco sessões ao dia) que proporciona o acesso a visualizações raras (destaque para os actuais ciclos dedicados a Mikio Naruse; ao Neo Realismo e a Robert Bresson) a um custo máximo por bilhete de 2,5.

Cinemateca ou Film Society, King ou Film Forum, Londres ou Lincoln Plaza, S. Jorge ou Angelika SoHo. Lisboa ou Nova Iorque, o importante é que ainda se pode ir ao cinema. E nestes tempos de hipermodernidade eu elogio os que nos permitem isso.

19.3.09

a assimilação da «desestruturação»



Ao reler o post anterior fico com algumas dúvidas quanto à palavra «desestruturação». De qualquer forma, mesmo sabendo que para quem o leia o seu significado possa ser intuitivo, consulto um dicionário de Língua Portuguesa (o da Academia, pois claro) para me certificar se o vocábulo existe só na minha cabeça ou em toda a parte. Encontro «desestruturar», o que já não é nada mau, (v. fazer perder ou perder a disposição, a ordem lógica de acordo com um plano, uma forma, um sistema), e «destruturar», (v. fazer perder a organização ou coesão internas). Dos dois verbos em questão, apenas «a acção de destruturar» evolui para um singular feminino: «destruturação». Isto deixa-me piurço a pensar por que raios funcionará para uma e não para outra. Consulto depois o Houaiss —os brasileiros são gajos pragmáticos— e afinal está lá: «desestruturação. s. f., acção ou efeito de desestruturar(-se) 1. desfazimento de estrutura, sustentação, organização; desordem, desorganização 2. p. ext., perda do referencial; perturbação (desestruturar + ção).»

O fenómeno da língua viva manifesta-se por aqui. Sorrateira e inconscientemente. Ou por alguma razão que desconheço a minha cabeça devia estar no Brasiu.

17.3.09

a alma siciliana e o homem de Kaos

'Esta Noite Improvisa-se' (1930), de Luigi Pirandello, com a confusão em palco povoada de desestruturações, rupturas, gritos, sobreposições, discussões, agressões e calúnias, é a par de uma revolução teatral um irónico reflexo da alma siciliana. Mas vendo a peça em português, (pelos Artistas Unidos), não consigo deixar de imaginar o que será vê-la no seu original em italiano. Apurará concerteza com certeza o requinte de malvadez idealizado pelo homem que nasceu num vilarejo siciliano com o improvável nome de Kaos. Toponímia que se mostrou, como aliás se nota, deveras adequada à obra do dramaturgo.

postcards from the suburbs

'Yours Truly, Postcards from the Suburbs', explora a imagética suburbana norte-americana. É um exercício reflectivo sobre uma iconografia específica, quasi-implícita e amplamente reconhecível no imaginário colectivo. Como um postal-ilustrado que capta um determinado ícone — geográfico, histórico ou pitoresco-regional — as fotografias apresentadas assumem-se igualmente como «colectoras de ícones». No entanto, fazem-no debaixo da assunção paradoxal de estes não serem objectos notáveis, como por exemplo o é uma «montanha», uma «igreja» ou um «monumento», mas sim objectos comuns e seriados.

'Yours Truly, Postcards from the Suburbs' estará patente ao público de 17 de Março a 11 de Abril na Galeria Pedro Serrenho Arte Contemporânea, em Campo de Ourique, Lisboa.

16.3.09

Narcotics, abortions, or were you by any chance a medic for the gang boys in some hot Eastern city?

O hardboiled detective Philip Marlowe em 'The Little Sister', (1949) de Raymond Chandler, edições Ballantine Books; para a pergunta do Sérgio Lavos. Apesar de já por aqui ter mencionado a quinta frase completa da página 161 da leitura actual a outra pessoa há algum tempo, (um ano ou assim), esta é uma daquelas respostas que está constantemente em mutação pois estamos sempre a ler coisas diferentes. Embora, e mesmo sendo este um apontamento supérfluo à essência da pergunta, deva acrescentar que por vezes há leituras que levam bem mais tempo do que isso. No meu caso a 'Bíblia' é precisamente um bom exemplo, visto que em quinze anos ainda não passei do Antigo Testamento.

13.3.09

a ferro e fogo

E como um herpes ou qualquer outra porcaria na pele que ataca quando estamos em baixo, também as recordações de merda se aproveitam das nossas momentâneas fraquezas de espírito. Talvez por isto te reveja agora até à exaustão, dia e noite, em tangos canalhas nos bares do sul, onde as luzes ténues disfarçavam sussurros transpirados com desconhecidos. O teu olhar cruel; sobretudo isso. Gravado a ferro e fogo.

11.3.09

Gordon mata Clark

Imagens de 'Tulsa', de Larry Clark; (o da direita)

no dona maria segunda

Enquanto levantava os bilhetes para o 'Esta Noite Improvisa-se', do Pirandello com encenação de JSMelo, reparei no programa para o resto da temporada. 'Miss Julia', do maníaco-depressivo Strindberg e 'August: Osage County', de Tracy Letts, o tal ideal para um Dia de Graças. Faz sentido. Teatro Burguês num teatro burguês.

9.3.09

copyright image: Larry Clark, from 'Tulsa'

Enquanto cineasta, as preocupações de Larry Clark nos anos noventa centravam-se maioritariamente nos reflexos de uma sociedade densa, urbana, agressiva e alienada nos adolescentes. Sendo a adolescência um marco transformativo, iniciático e experimental, Clark debruçou-se sobre a procura da identidade sexual, o uso de drogas, a violência física, a vulnerabilidade psicológica e a erosão do núcleo familiar neste período. Com base nesta abordagem, para uma melhor compreensão da obra cinematográfica de Larry Clark há que ir mais atrás no tempo e começar duas décadas antes pela fotográfica. Embora sendo duas perspectivas diferenciadas, as suas publicações 'Tulsa' [na imagem] (1971) e 'Teenage Lust' (1983) antecipavam já aquilo que viria a ser a sua temática no cinema. Em 'Teenage Lust', Clark joga com imagens intimistas e explícitas de um universo adolescente e errático —algumas delas visualmente re-interpretadas nos seus filmes. Porém, é 'Tulsa' o trabalho magno e original do norte-americano. Neste livro Clark revela um quotidiano de drogas duras, sexo colectivo e armas-de-fogo de um grupo de jovens adultos na provinciana cidade de Tulsa, Oklahoma. Um conjunto de imagens cruas que detém uma particularidade: Clark, sendo o fotógrafo, é igualmente uma das suas próprias personagens. Desta forma abriu as portas para um novo método de documentário fotográfico pós-moderno, urbano, decadente, marginal e íntimo no qual o autor faz igualmente parte do objecto de registo. Depois dele vieram Nan Goldin, Boris Mikhailov ou a recente Jessica Dimock.

4.3.09

outro exemplo

Ainda sobre as possíveis condições asfixiantes da criação literária, embora diferente da enumerada no caso de Joseph Conrad, lembremo-nos de outro exemplo. A personagem 'O Jovem', de 'A Noite Canta os seus Cantos' do dramaturgo norueguês Jon Fosse. Vítima de um marasmo criativo e de um desinteresse editorial, chegou ao jovem escritor primeiro a misantropia, depois a apatia e por último um valente par de cornos antes do suicídio final. Agora, mesmo sendo este um exemplo fictício, se isto não é uma asfixiante condição da criação literária então não sei o que será.

experimentemos em inglês, o que faz todo o sentido

Numa colectânea de ensaios, ('Essays on Remarkable Photographs', Aperture, 2005), Domenic Willsdon, dissertando sobre a conhecida 'Aegean Sea, Pilíon' de Hiroshi Sugimoto, refere que os títulos têm a capacidade de apelar a outras histórias que a própria imagem não incorpora. No caso da fotografia em questão, um mar tranquilo e deserto em dia de nevoeiro no qual desaparece a linha do horizonte, o ensaísta, unicamente através do título, remete-nos para uma determinada leitura subliminar: mitológica e cultural, geográfica e histórica. Sabendo de antemão esta importância rotular em detrimento do paradoxal sem título, preparo há já algum tempo doze títulos para doze imagens. Dado o objecto no qual elas incidem ser suburbano, vulgar e prosaico, neste momento todos os pensados me soam a originais pimba. E o pior de tudo isto é que o soberbo 'Querido Mês de Agosto' já tem dono. Por duas vezes.

3.3.09

não te preocupes Marcello,

Marcello Mastroianni, no set de 'Ieri, Oggi, Domani', a olhar para o decote de Sophia Loren

que esfregaríamos todos.
As mãos, obviamente.

o Molière que há em mim

Desperto-me relativamente cedo pois não sou do género de o fazer tarde, axioma que repito a mim mesmo e a todos os demais; ou pelo menos tão tarde como comparativamente me deito, conclusão que em prol da verdade acabo sempre por acrescentar.

2.3.09

de escrever

Joseph Conrad só escreveu o que escreveu porque o viveu. Mas também só o escreveu porque já não podia vivê-lo mais. Assim é a Literatura, por vezes elevada a tão asfixiante condição.

o caso



Imaginemos o caso. Como um exemplo prático para uma metodologia a seguir. E depois disso pensaríamos — e daríamos as Graças — que seria inexistente a ulterior convivência com os hipócritas, cobardes e pedantes que geralmente transbordam a sua «grandiloquência» para as vidas alheias. Mas seria um erro. Mudar tudo, como o homem que foi Mattia Pascal, não leva necessariamente a lado nenhum. A mediocridade de carácter, alma ou espírito, como se sabe, está por toda a parte. Molière, mais uma vez, também já falava nisso.

27.2.09

Os pregões da modernidade, anunciando butano ao invés de peixe, acordam-me ao ecoar pelas ruas estreitas. Pelas nesgas da gelosia identifico os responsáveis, jovens indianos que percorrem os labirínticos quarteirões vendendo bilhas de gás. Gosto de manhãs e as daqui sobretudo pela sua luz, que em dias generosos como o de hoje atravessa o casco antiguo e se perde lentamente pelas promíscuas fachadas de pedra chegando ao chão em vítreos reflexos dourados. As vizinhas da frente ainda dormem, de persianas abertas que deixam entrever os seus corpos enrolados em lençóis claros. Ducho-me numa casa de banho com vista para um pátio interior carregado de varandas decoradas com roupa estendida, máquinas de lavar ferrugentas, cães de porcelana e gatos de carne e osso, bicicletas, velhas com toucas no cabelo e uma jovem escandinava que rega vasos de cannabis antes de ir trabalhar. O pão fresco vende-se na esquina do carrer Montcada. Pão de Pagés, o único que por aqui é verdadeiramente digno do nome de Corpo de Deus. Entre as apertadas ruas a caminho da padaria cruzo-me uma vez por outra com algum casal de turistas que se aventurou para cá do Museu Picasso, este território medieval e enigmático que alberga ainda os despojos da noite e dos vícios obscuros, nossos e de outros tempos, e de onde as putas africanas há poucas horas largaram o seu habitual turno de sedução.

26.2.09

dos livros

Há quase dois anos, antes de ir, deixei umas dezenas de livros na minha casa de Barcelona. Depois, do outro lado do Atlântico, acabei por deixar a casa também. Durante este tempo eles continuaram por cá, não tão longínquas terras catalãs, armazenados em caixotes de papelão povoando ligeiramente as minhas preocupações. Recupero-os agora e penso nas palavras que uma noite escutei: os livros que lemos em determinada altura são mais do que apenas livros, são igualmente diários — ou em última análise serão provocadores de registos mentais — de outras e muitas coisas que não vêm nas suas páginas. Penso nisso, este momento ao folheá-los. Registos de uma música específica que por aqueles dias se escutava on repeat, de uma característica luz que invadia a sala, de uma reacção alheia provocada por uma citação. Os livros, por dentro e por fora, são mesmo uma parte de nós.

24.2.09

'King and Queen', copyright Diane Arbus

Escusado será dizer que o mês de Fevereiro reúne os dois momentos mais burlescos do ano. O Carnaval, uma ode ao grotesco, e a noite de S. Valentim, ritual não menos carnavalesco. Por isso um bom momento, embora tal desculpa não fosse verdadeiramente necessária, para nos lembrarmos mais uma vez de Diane Arbus. Uma dessas poucas pessoas, como Pasolini por exemplo, que viu Fevereiro em todos os meses do ano.

20.2.09

el señor Monclús

Depois de quase dois anos, período durante o qual entreguei a complexidade do meu cabelo encaracolado à habilidade de uma matrona russa, cinquentona e bebedora de vodka nas horas de serviço na barber-shop da Metropolitan Ave, regressei hoje ao senhor Monclús, barbeiro no Barrio Gòtic e filósofo nas artes capilares e da psicologia feminina. A conversa, naturalmente muita como é apanágio da sua classe, versou sobre temas como a América, Obama, o penteado de Obama, Bush, o pentado de Bush e o porquê das traições de mulheres casadas com o melhor amigo dos maridos. Só depois, ao sair da barbearia e parar diante da vitrina da chapelaria do carrer d'Avinyó, estudei calmamente o meu reflexo e tentei perceber mais uma vez porque continuo a ir ao senhor Monclús. Pela conversa, parece-me; talvez apenas pela conversa, pois no que toca ao corte de cabelo é sempre e inevitavelmente para esquecer.

Enfim, como eu gostaria de ter o cabelo parecido ao do Dana Andrews. Seria tudo muito mais fácil.

18.2.09

milfs, those ladies we'll follow home

E facilmente me ocorrem outros casos parecidos: Vicky LaMotta, ex-mulher do Ragging Bull, Farrah Fawcett ou Nancy Sinatra. Todas com mais de cinquenta anos quando posaram nuas para a Playboy. Afinal, como alguém disse, os 50 são os novos 40. Um delico-doce efeito da hipermodernidade.

the beautiful persists



O tema (e a admiração) do (e pelo) amadurecimento feminino sempre foi uma constante neste blogue. Basta pensar na quantidade de vezes que o acrónimo milf ou o termo mulher madura encheram estas linhas — ou fotos, sem as referidas classificações, de ambas as coisas que por vezes são exactamente a mesma. Calculo que esta foto de Lauren Hutton tão-pouco necessite de qualquer tipo de legenda; excepto talvez para dizer que foi tirada no ano em que eu nasci, tendo ela trinta e quatro anos na altura e que vinte e sete mais tarde, aos seus sessenta e um, posou nua para a Big Magazine.

Debaixo do título Lauren Hutton: The Beautiful Persists.

17.2.09

the girls we followed home

Há um poema de Charles Bukowski que incide sobre as meninas que um dia acompanhámos a casa. Facilmente compreendemos que o poema tem uma pujança particular remetendo o sujeito, neste caso o poeta, e o objecto, no caso de Bukowski sempre as mulheres, para a idade maior, a velhice. Mesmo assim, numa observação mais ampla, não deixará de ser igualmente um reflexo pluri-geracional. Porque se aos setenta as meninas que um dia acompanhámos a casa são agora as senhoras de cabelos brancos e bengalas ou de pantufas em lares de dia, aos trinta elas são as mães atarefadas, as profissionais responsáveis, as carreiristas de sucesso, as aborrecidas mulheres fiéis. E embora aos trinta continuem a mergulhar nas ondas de espuma branca ou a encher os corpos de óleo bronzeador, há algo de jovial que se perdeu nelas, que se perdeu na exigência das suas obrigações sociais. Por isso, aos 30 ou aos 70, as meninas que um dia acompanhámos a casa estão sempre e naturalmente algo mais maduras do que aos 20 estiveram; mais pesadas, menos aventurosas, mais cansadas. Progressiva e inevitavelmente.

No fundo tudo isto poderá ser perfeitamente normal, o ritmo da vida, chamam-lhe alguns, mas a força intrínseca desta constatação dá-se pelo efeito reflectivo do fenómeno: também nós, neste caso o sujeito, estamos mais maduros, mais pesados, menos aventurosos, mais cansados do que um dia no passado estivemos. De uma forma igualmente progressiva e inevitável. O tal ritmo da vida, dizia eu, que um certo complexo de imaturidade tende a renegar e que me leva, precisamente, a um excerto de outro poema do velho gaiteiro do costume:

[...] the others had become sedate, / had become responsible / citizens with / children, jobs, mortgages, / life insurance and pet /dogs. [...]

16.2.09

o seu duplo perene

Stephane Audran

15.2.09

o que fica dos que se vão

Ficaram gravados os conselhos e as palavras de sapiência, que a idade e a longa vida lhe acumularam, e que em inúmeras vezes os transmitiu. Ficaram também as chamadas histórias de outros tempos, contadas ao género de parábolas, trazendo subtilmente muito mais do que aquilo que anunciavam; em tardes passadas à sombra de uma figueira nos agora longínquos e nostálgicos estios da infância. Mas mais do que isso ficou o paradigma de um carácter, no que a honestidade e justiça tocam. Ficou tudo isto, deixado por um amigo que se foi.

11.2.09

meo

O meu irmão mais novo enaltece as vantagens da televisão digital. Como caso prático mostrou-me um exemplo: estando fora às horas da emissão, deixou programada uma gravação. Agora, enquanto explica como tudo funciona, carrega no play e o programa começa. E eu, perante a gravação do 'Lingerie' do Fashion TV, concordo com ele. Ao ponto de também vir para aqui enaltecer as vantagens da televisão digital.

a midnight valium for a good night's sleep

Deviam ser por volta das cinco e meia da tarde quando passei por lá. Sendo Inverno, estava já escuro, mas a luz dos novos candeeiros era suficiente para iluminar o local. Cerca de sete anos passaram sem que eu cruzasse o dito sítio, fiz mentalmente as contas. Não por algum motivo em particular, apenas assim foi pois as geografias sentimentais e as urbanas andam interligadas, como as cartas de azar. Ao parar o meu carro no sinal encarnado, diante da passadeira, revi a história que um dia me contaste, passada talvez sete anos antes destes há sete anos atrás. Tu, ainda miúda, antes de mim e dos outros homens que estiveram antes de mim, de mochila às costas e com o ar inocente próprio das crianças que pensam já ser mulheres. A noite de Inverno, como esta, a chuva como a de ontem e uns candeeiros antigos e frouxos. Depois tu na passadeira, caída, desmaiada, o condutor que não te viu aos gritos a pedir ajuda, a poça de sangue, a perna dobrada numa posição impossível.

Revi tudo isto. Depois esforcei-me, mas o que eu não consegui rever foi o teu rosto.

10.2.09

dizia eu



"Por ser quem é", dizia eu.

6.2.09

sem título, um paradoxo



Por gostar desta foto de Rosalind Krauss ia escrever como título do post o habitual those ghostly traces, photographs. Mas por ser quem é Krauss, aqui retratada nos anos 1970, parece-me mais correcto transcrever uma frase sua do que a de Susan Sontag. Assume-se assim o compromisso: frase de Krauss para nova série. Para já fica como título o mui artístico e original sem título. Um paradoxo, como não poderia deixar de ser.

às vezes penso que gostava de ter o cabelo à Dana Andrews

De um certo ponto de vista 'O Presumível Inocente' (1990), de Alan Pakula, toca em alguns aspectos 'Laura' (1944), de Otto Preminger. Há no ar uma subliminar e peculiar devoção a uma morta, a um cadáver. No caso do primeiro justificada pela anterior história em comum, no segundo criada pela contemplação de uma única imagem e pelos testemunhos daqueles que perto dela viveram. Existe porém uma grande diferença: afinal Laura não estava morta, o que prova o excelso sexto sentido poirotiano da personagem de Dana Andrews, coisa que Sabich claramente não teve.

5.2.09

o presumível inocente

Em 'O Presumível Inocente' Barbara acusa Sabich, o marido (Harrison Ford), de ainda pensar na antiga amante. Sendo o tema em si recorrente entre (alguns) casais o comentário não seria de estranhar. Há no entanto um detalhe relevante: pela altura da conversa já ambos sabem que Carolyn, a amante, morreu na noite anterior vítima de um atroz crime. Esta particular situação vem ilustrar uma importante característica feminina. Mesmo mortas, física ou abstractamente, as exes serão sempre entre (alguns) casais uma sombra permanente. Estando o homem, quase sempre, no meio de tudo isto muito presumivelmente inocente.

4.2.09

o seu duplo perene

Lynda Carter

Lynda Carter, 'The Wonder Woman', a mulher maravilha.
Percebendo-se nesta foto muito bem porquê.
Algures nos anos 1970.

das lascas

No dicionário de Língua Portuguesa a palavra «lasca» tem diversos significados. Entre eles salientam-se os fragmentos de madeira ou metal ou estilhaço. Naturalmente que na gíria a palavra significa ainda mulher bonita, elegante e bem proporcionada. Há no entanto uma outra definição que me salta à vista: uma «lasca» pode igualmente ser uma espécie de jogo de azar. Esta definição existe utilizando a palavra como um substantivo feminino, mas a verdade é que não me lembro de tão licoroso sentido figurativo. Uma lasca é sempre uma espécie de jogo de azar.

2.2.09

ainda das tarefas de cicerone

Até me poderia parecer que a segunda semana foi igualmente rica e preenchida ao cumprir o meu papel de cicerone perante os amigos estrangeiros, mas a verdade é que do Porto a Coimbra, de Sintra a Sines não passei de um turista mais. O "ao menos falas o idioma" coube-me de parco consolo; mesmo sabendo que por exemplo no Porto não me entendiam lá muito bem.

30.1.09

'claws of paradise', C. Bukowski

[...] there is nothing to do / but drink / play the horse / bet on the poem
as the young girls become women / and the machineguns / point toward me / crouched / behind walls thinner / than eyelids.
there's no defense / except all the errors / made.
meanwhile / I take showers / answer the phone / boil eggs [...]

sweet sixteen e a cultura popular

Receber amigos estrangeiros e fazer de seu cicerone é a melhor forma de redescobrir certas características de uma cidade e da sua cultura, sobretudo para quem tem estado os últimos anos fora. Nesta redescoberta compreendem-se da mesma forma as recentes mutações. Assim, se há coisas que permanecem iguais, como por exemplo o fado gingão ou o cacilheiro para Porto Brandão, outras mudaram consideravelmente. A noite, em primeiro; as pessoas que estão na noite, em segundo; e nós próprios à noite, em terceiro.

23.1.09

telespetadores



David Cronenberg antecipando em 'Videodrome' (1983) uma pavorosa especificidade do nosso recente Acordo Ortográfico. Telespetador, s.m., aquele que vê televisão e aquele que igualmente a espeta.

ainda sobre mencken

Às páginas tantas, na 85 para ser exacto, Mencken aponta no seu característico tom satírico uma terceira razão para não abandonar os Estados Unidos, não obstante, e nas suas palavras, os incitamentos lascivos de muitos expatriados para a eles se juntar. Refere assim a ideia de um país-espectáculo cativante pela oferta de um entretenimento peculiar e inigualável (pensava ele): peixeirada entre demagogos, elaboradas tramóias pelos ases da trafulhice e caça aberta às bruxas e aos hereges.

Mas agora pergunto-me: e se Mencken, popularmente conhecido como o Sábio de Baltimore, preferiu não sair da América por saber que tal como ele tinha elevados preconceitos culturais em relação à grande maioria dos seus conterrâneos, ao ir para a Europa não iriam da mesma forma os europeus exercer esse sentimento de superioridade perante ele, um «americano»? É bem provável, pois preconceitos há em todo o lado e assim sendo, mesmo nos anos '20, já era sempre melhor ser sábio em casa própria do que burro em terra alheia. Ou então esta conclusão é apenas um reflexo do Mencken que há em mim a falar.

22.1.09

mr. mencken



Parece assim uma especiezinha de Schopenhauer tardio à la américaine.
Ou seja, um mau-feitio que não lembra nem ao diabo.

on being an american

O norte-americano Henry Louis Mencken, em 'On Being an American' (da série 'Prejudices'), num culto cínico e provocador de elitismo cultural afirma no início do segundo capítulo em jeito de resumo —embora não se devam menosprezar para o tema os dois seguintes— que "Os Estados Unidos são essencialmente uma comunidade de gente de terceira categoria; esta é uma distinção fácil de fazer devido ao baixíssimo nível de cultura, de informação, de gosto, de capacidade critica e de competência."

Dando o tom, continua depois num registo semelhante no qual todos os elementos da sociedade —de colonos a pioneiros, de canalizadores a intelectuais, de políticos a jornalistas— são alvo da sua prolixa verborreia acusatória. Mencken mostrava assim, no ido ano de 1922, algo sintomático da «sua» mas também da «nossa» actualidade: being an american —e o que quer que isso signifique— pode igualmente ser being an anti-american.

21.1.09

dos eternos românticos

Sempre fizera leituras erradas dos homens. Julgava-os francos quando não o eram; maltratava-os desconfiada e com um feroz instinto de auto-preservação quando eles não o mereciam. Um dia conheceu Alain, um playboy de renome daquela praia francesa. Tinha charme, comentara mais tarde a uma amiga, e era um connoisseur; da vida e das mulheres. Ela sabia, ou assim se convenceu, de que ele não serviria para muito mais do que para uma aventura, divertir-se por uns breves tempos e posteriormente cada um seguiria o seu caminho. Disse-o a Alain, que bateu com a porta no minuto seguinte. O que demonstrou que afinal era um homem sério, nem que fosse apenas como ideal.

19.1.09

da delico-doce madeira de acácia e seus acabamentos

Ignorando as condições atmosféricas, passadas, presentes e futuras, concluo finalmente a montagem de uma mesa em madeira de acácia para o terraço. Devido à obrigatória protecção para as mui variadas amplitudes térmicas, da chuva de Inverno ao sol de Verão, a madeira vem revestida com um líquido de origem resinosa que tresanda a merda. No catálogo, a mesa aparece classificada como um produto exclusivo para o exterior. E eu, perante isto, não poderia estar mais de acordo.

16.1.09

jayne, a man's field

Jayne Mansfield

very fast, very past

'Uma imagem vale mil palavras'.
Não me ocorre outro ditado popular igualmente tão hipermoderno.

nyc 10989, magnum photos

Folheio com calma o livro, 'New Yorkers as seen by Magnum Photographers', que tinha há algum tempo na lista de espera das leituras em atraso. Seguindo o conceito de Barthes, o meu punctum dá-se ao chegar à pagina oitenta e tal; mesmo depois de atravessar séries de imagens que remontam à minha memória quotidiana da cidade que nunca dorme; por Alex Webb no Financial District, onde trabalhei, à cena de estalada entre dois homens na linha L, a mesma que usei diariamente a caminho de casa em Williamsburg, por Elliott Erwitt. Olhei a fotografia surpreso, desconhecia-a. É uma imagem simples, despretensiosa, urbana e tranquila. Tem por título 'a newly arrived immigrant eats noodles on a fire escape'. Ela é isso, de facto, mas é para mim muito mais do que isso.

**

Podemos dividir o campo visual em dois planos distintos. À esquerda revela-se uma rua movimentada, numa cota inferior, e o facto de ter mais trânsito em direcção a sul demonstra que a hora do dia será talvez pouco depois das cinco da tarde, altura em que o fluxo para Brooklyn —a Manhattan Bridge está a um quarteirão— começa a aumentar. Não há sol nem sombras. As fachadas, de cinco a seis pisos, estão decoradas com reclamos de ourivesarias e de diamantes. No plano direito da fotografia está um homem asiático sentado num degrau de umas escadas de incêndio, no patamar exterior do terceiro para o quarto andar. Está apenas de cuecas e chinelos, de pernas cruzadas. Com a mão esquerda segura uma taça da qual sorve distraidamente, com a direita os chopsticks e parece ignorar o fotógrafo à sua frente, demonstrando uma certa intimidade.

**

É esta a pensão, a minha lodge de Chinatown. Aquela em que por aqueles dias (no final da primeira estadia) chamei neste blogue de Os dias do China Hotel e na qual fiquei por mais de um mês, alternando períodos de seis, sete noites num cubículo do quarto andar com outras passadas noutros sítios. Foi aqui que estive mais só do que nunca e do que em qualquer outro lugar. E foi também aqui que de alguma forma me reequilibrei, recompus e preparei o regresso à normalidade, com apenas a companhia de cigarros american blend como conselheiros nocturnos. Exactamente nas escadas-de-incêndio desta foto, onde se vê um emigrante recém-chegado a comer uma sopa de massa chinesa no ano de 1998, uma década antes de mim. Não há engano possível.

15.1.09

não te preocupes sophia,

Sophia Loren espreita o decotezorro de Jayne Mansfield; foto de Joe Shere

que olharíamos todos.

bone lonely, obra ao negro

'Bone Lonely', um conjunto de 32 (ou 33?) fotografias a preto e branco —pequenas, sujas, escuras e cheias de grão— de Paulo Nozolino, dá o título à exposição. Nestas imagens dispersas, espacial e cronologicamente, o autor agrupa elementos essenciais e característicos da sua visão particularmente enegrecida e pessimista do mundo. Nozolino (1955, Lisboa) percorre o lado obscuro das cidades e da sociedade, registando texturas, sombras humanas, rostos anónimos, vazios urbanos, despojos domésticos.

Encarna o papel do observador invisível, ele próprio uma terceira sombra, que capta a memória e os momentos daquilo e daqueles que nada de sedutor exercem no imaginário global das chamadas sociedades desenvolvidas e assépticas. Nozolino denuncia uma podridão latente e escondida, sendo a «escondida» por vezes visível e ignorada, e reforça assim a solidão de um mundo marginal —físico e abstracto. Mas não é o acto de denúncia o veículo condutor do seu trabalho; este é apenas uma consequência da sua auto-exorcização enquanto homem, da sua procura pela Beleza & Horror entre a decadência e a banalidade.

Acoplada a Nozolino está a aura do fotografo incondicional, do caminhante errático para o qual a «viagem» é a indissociável parte do processo. E uma vez mais, como ele próprio comenta, é no vazio de quartos de hotel que revisita os seus medos e erros. Talvez por tudo isto o que vemos em Paulo Nozolino é também um bone lonely, um esqueleto solitário.

13.1.09

nobody in my books drinks cognac
because I can’t spell the word




Ou o porquê de todos beberem whisky duplo com gelo.

o espectro de Lipovetsky

'Bone Lonely' é mais um trabalho de dissidência em relação à hipocrisia global que tenta vender a imagem da felicidade às pessoas. Sinto-me só, sinto-me desiludido, mas por outro lado há uma espécie de serenidade interior por ter chegado a estas conclusões.

Paulo Nozolino, no Ípsilon, sobre o seu mais recente trabalho.

12.1.09

o espectro de Hammershøi

'Intimacy', copyright de Rita Magalhães

Primeiro em Carl Th. Dreyer, agora em 'Intimacy';
um belo e melancólico trabalho de Rita Magalhães.

a colecção BESarte, educação pública como um segundo acto de mecenato

A colecção BESarte Foto, iniciada em 2004 e agora parcialmente exposta no CCB (imperdível e com entrada gratuita), é a chamada colecção by the book. Através do seu objecto central, a fotografia (e dentro da fotografia essencialmente a fine-art photography), reunem-se alguns nomes-chave da história do meio a partir dos anos 1960/70 do século XX e muitos novos autores do século XXI. A opção por artistas de referência (nacionais e internacionais) serve de suporte à colecção; uma escolha de obras emblemáticas e singulares em detrimento de séries de um mesmo autor permite uma maior variedade de estilos e abordagens; e a aposta paralela em gerações mais novas e em ascensão traz a contemporaneidade e vanguarda. Estes elementos, ou as bases que estruturam a selecção de obras, são explicados na introdução do livro/catálogo por Alexandra Fonseca Pinho, a curadora da colecção (e não da exposição).

No acervo de mais de quatrocentas e cinquenta obras, impressionantemente reunidas em apenas quatro anos, há uma segurança na escolha de fotógrafos consolidados mundialmente que garante o investimento (pois uma colecção privada é também e sempre um investimento) e existe igualmente um interesse em nomes novos e com potencial internacional, um acto de mecenato. Ainda de salientar que esta aposta cultural do BES, claramente um paradigma, vem ao mesmo tempo abrir portas ao meio (to the medium) num acto de educação pública —ou um segundo acto de mecenato— para um país no qual a fotografia (e sobretudo a fine-art photography) não tem (ou pouca tem) qualquer expressão comercial.

mesmo a calhar

Agustina Bessa-Luís na revista LER deste mês. Vem mesmo a calhar.

10.1.09

A Sibila

Bastou-me chegar ao final do Capítulo I para perceber que não vale a pena continuar a dobrar os cantos às páginas, um velho vício do qual sofro para marcar algo relevante na leitura. A escrita de Agustina Bessa-Luís é singularmente poderosa, sendo por conseguinte difícil escolher algumas passagens em detrimento de outras. Passando a hipérbole, todas as linhas são notavelmente pungentes na dissecação e na análise da condição humana e dos mecanismos da mente e espírito, suportadas por uma astuta capacidade de distanciamento e observação; mesmo que —como é o caso de 'A Sibila' desenrolada maioritariamente num ambiente rural— remetidas para um espaço físico e temporal tão distante da hipermodernidade que geralmente me assombra.

a ligação por prevenção, ou o «estilo hamletiano»

[...] e o facto de se ligar irremediavelmente a Maria representava um golpe de defesa que corrigiria muitos desvarios a que se sabia sujeito. Este traço do seu carácter transmitiu-o depois a quase todos os filhos, e podia definir-se pelo «estilo hamletiano», [...].

Em 'A Sibila' (1954), de Agustina Bessa-Luís, naquilo que me parece ser a primeira de múltiplas transcrições.

9.1.09

Hélas



Tanta merda e afinal aos seus olhos não foi mais que Pétain.
Um dia um magno herói, outro um comodista traidor.

Hélas.

o ponto de equilíbrio

Se há coisa que não muda são pessoas, como se tem eternamente dito, mas tal como as pessoas tão-pouco mudam as relações entre as pessoas. Ambas podem evoluir, separadamente ou em conjunto, mas a essência de cada uma é imutável. O que geralmente acontece é que nessa evolução se tenta encontrar um «ponto de equilíbrio» que posteriormente deverá ser mantido através de um certo e particular esforço, inconsciente ou não, no qual todas as partes se digladiam mais ou menos secretamente. Estas ditas partes serão, por exemplo numa pessoa, as deficiências de espírito e fragilidades de carácter, defeitos reconhecíveis, e a tentativa em combater, camuflar e renunciar a sua totalidade face aos padrões que aspira; humanos, morais, sociais, relacionais. Numa relação, cada parte é naturalmente uma das pessoas que procura seguir um fio condutor, balizado pelo «ponto de equilíbrio» dela própria, que sabe não poder ultrapassar em favor de uma esperada harmonia.

É este esforço, tido nestes parâmetros como uma evolução pessoal, que caracteriza a posterior evolução relacional e faz com que esta última pareça forte, próspera e consistente. Mas se há coisa que não muda são as pessoas, como se tem eternamente dito, e por isso, na sua génese, tão-pouco mudam as relações entre as pessoas. O «ponto de equilíbrio», ou a sua infinita constância, é assim uma coisa muito utópica, como uma espécie de torrezinha de Babel de nós próprios.

6.1.09

o seu duplo perene

Monica Vitti

A Sara escolheu 10. Eu, pelo que sempre li da Sara, escolho ainda uma décima primeira.
A Vitti, para a Sara, pois mais uma vez bate tudo certo.

uma nova contagem

Visitei-o três vezes em diferentes alturas do ano. Movimentava-se lentamente na sua sala ampla de um apartamento no final do Upper West Side com vista para o Riverside Park. As paredes forradas a tecido e a elegância do mobiliário soavam aos códigos decorativos dos anos 1960, denunciando nos dias de hoje nada mais do que um toque feminino que há muito desaparecera. Guardava as fotos amarelecidas e gastas numa cómoda igualmente velha e nunca se cansava em mostrá-las em cada uma das minhas visitas. Eu não era eu, era unicamente uma sombra concordante e interessada para a qual ele explanava as antigas memórias.

Veio para Nova Iorque há cerca de sessenta anos, revelou-me uma vez, e embora esse período da sua vida não faça parte do rol de histórias interminável, sei de outra fonte que nasceu na Martinica Francesa e lá passou a sua infância. Foi toda a vida contabilista, com escritório próprio, de pessoas de relevo na sociedade nova-iorquina. Percorrendo os seus álbuns fotográficos percebe-se o seu mundo: as viagens para locais exóticos e idílicos, as festas luxuosas e as mulheres atraentes. Mas o que conta na sua vida só é válido a partir do momento, nos finais da década de 1960, em que conheceu aquela que viria a ser a sua futura mulher. Agora, com oitenta anos, sem filhos e viúvo há quinze, explica-me que inconscientemente despreza e esquece tudo aquilo que vem «antes» ou «depois» de ela. Eu vi as fotos e compreendo-o. Uma mulher assim pode fazer um homem pôr tudo num novo princípio, numa nova ordem, numa nova contagem. Acabou por dizer-me que era uma num milhão. Eu sei o que é isso, respondi-lhe, embora ele não tenha acreditado.

5.1.09

o lugar vazio

Em Lisboa, agora um interlúdio de outras cidades noutros países, volto a encontrar o meu velho lugar de pedra no sétimo degrau de umas escadas de mármore de uma igreja da Rua Garrett. Bom para ver quem passa, ainda que não passando alguém, é como se não passasse ninguém.

a metáfora



Ou o meu outro lugar.

a midnight valium for a good night's sleep

A janela aberta. Cigarros atrás de cigarros fumados a meias com o vento que entra no carro. Ouve-se apenas o monótono barulho do motor e a lenga-lenga dos pneus a massacrar o asfalto — hipnótica, de certa forma, tal como a perspectiva da estrada escura que teima em não levar-me a lado nenhum quilometro após quilometro, cigarro após cigarro. Assim são as noites na ressaca de ti, pelas estradas desertas do Alentejo.

2.1.09

dos pontos fracos

Relações de ouro com pés-de-barro desmoronam-se sempre em noites de chuva forte.

os 400 metros

Percorri de novo aqueles quatrocentos metros. Os mesmos quatrocentos metros que calcorreámos na primeira madrugada do ano entre chuva e nevoeiro, entre gritos e insultos. Os quatrocentos metros do teu histerismo e do meu desespero; da tua fúria e da minha incapacidade; da tua fuga desmedida e do meu medo ao imaginar-te sozinha na noite deserta e perigosa de uma cidade estranha e distante. Revi mentalmente, passo a passo, cada expressão e cada frase, cada loucura e cada falta de tacto. De hoje em diante, nestes quatrocentos metros e na minha memória, ficarão para sempre as inesperadas e improváveis imagens sombrias que se sobrepõem agora a quaisquer outras que vivemos — como um trauma, como aquelas pessoas que um dia encontram um cadáver de alguém de quem gostam pendurado na sua sala de estar.

1.1.09

lacrimae rerum

Estado Civil (2006-2008)

**

The barns are stormed
The windows kept
& only one of all the rest
To dance & save us
W/the divine mockery
of words

in 'American Prayer'
1978, Jim Morrison

31.12.08

agradecimentos finais

Não queria deixar de agradecer novamente a todos os que por aqui passaram e também àqueles que de uma forma ou outra deram a conhecer este blogue a terceiros. O meu sincero Obrigado.

Disse e repito: misantropo, mas não mal-agradecido.

Bom 2009.

de 2008 (blogosfera)

Quando o ano passado comentei que os meus blogues favoritos de 2007 já o tinham sido em 2006 e que continuariam a sê-lo em 2008 não me enganei. Isto não quer dizer que seja um homem de hábitos (que paradoxalmente em parte sou), mas sim que estes blogues são muito bons e que continuam coerentes e consistentes naquilo que sempre me seduziram. E tal como o ano passado descobri paralelamente outros blogues que me interessaram pelas mais diversas razões, também em 2008 tive boas e muito boas surpresas que foram completando a minha lista de links. Por tudo isto, é caso para dizer: a blogosfera está bem viva e recomenda-se.

cinematographers



Um ano de clássicos imperdíveis: 'Samurai Rebellion' (1967) de Masaki Kobayashi com fotografia de Kazuo Yamada; 'Letyat Zhuravli' (1957) de Mikhail Kalatozov com um grande, grande, grande trabalho de câmara de Sergei Urusevsky; 'The Human Condition' (1959/61) de Masaki Kobayashi com fotografia de Yoshio Miyajima; e 'Muerte de un Ciclista' de Juan-António Bardem com fotografia de Alfredo Fraile.

dos ausentes

Eu, mais do que qualquer outro. Este ano, mais do que nunca. Por vezes a distância física transforma-se numa distância sentimental e estar longe pode igualmente significar estar ausente —nos momentos maus e nos momentos bons— das pessoas que realmente importam.

A Liberdade nunca vem só. Vem sempre muita merda atrás na factura para pagar.

30.12.08

dos presentes

Encontrei à minha espera, entre outras coisas, uma colectânea de filmes notáveis da História do Cinema; o 'Nada de Melancolia' do Pedro Mexia; uma trilogia do Steve McQueen com a frase Um Homem de Outros Tempos escrita no verso; o 'Transa Atlântica' da Mónica Marques; e uns recortes da Ines Sastre retirados de uma revista estrangeira. Há quem me conheça bem, concluo, mas também tem uma discreta ajuda deste blogue.

O que é uma grande vantagem. Sobre mim; para mim.

29.12.08

bazar e casar

Num reencontro bienal com os amigos de sempre saltam dois grandes grupos: a) os que se piraram e se divorciaram do sedentarismo; e b) os que ficaram e se divorciaram das mulheres.

das renas

Quando na Noite de Consoada entrei no avião, encontrei todas as assistentes de bordo adereçadas com uns cornos de rena feitos de pano e arame. À que me acompanhou ao lugar larguei o óbvio e provocador 'afinal as renas voam'. Por ser totalmente ignorado retirei assim a segunda ilação da noite: as renas voam, mas não falam inglês.

22.12.08

moon photo

'Neil Armstrong na Lua', Copyright Arquivos NASA

Também foi com uma Hasselblad 500.

das coisas que batem certo

Ayn Rand, a autora do livro que deu origem ao script que deu origem ao filme que deu origem a este blogue, foi a única (e único) defensora intelectualmente credível de Mickey Spillane, o autor dos livros que deram origem aos scripts que deram origem ao filme que é a metade da metade esquerda do meu cérebro. De facto há coisas que batem mesmo, mesmo, certo. Na minha cabeça, pelo menos. Ou quanto muito na metade da metade esquerda.

21.12.08

dos tipos de pessoas

Paul Schrader abriu a onstage conversation sobre o seu filme 'Mishima, a Life in Four Chapters' com uma questão em tom humorístico: "Antes de vir para cá perguntava a mim mesmo: que tipo de pessoas se atreve a ir para uma sala de cinema em noite de tempestade de neve [nevou o dia todo], sexta-feira véspera de fim-de-semana natalício, ver um filme que demora duas horas, num idioma estrangeiro, sobre um fascista suicida homossexual japonês?".

Olhei para o público e encontrei a resposta: 1) os interessados em Schrader e 2) os interessados em Mishima. No meu caso pertenço aos primeiros. E, acrescento, ir ouvi-lo pessoalmente pela segunda vez valeu cada floco de neve no focinho.

20.12.08

compreender schrader



E depois juntar-lhe Sexo & Violência.

a life in four chapters

Depois da onstage conversation na Cinemateca de Brooklyn em Maio passado, por altura da projecção de 'Light Sleeper' dentro da retrospectiva 'Edward Lachman, Cinematographer', foi ontem possível voltar a ouvir Paul Schrader falar sobre a sua obra cinematográfica. Desta vez, no Film Forum, Schrader não era um convidado mas sim a figura de destaque — embora na noite com Lachman, como aqui referi, Schrader acabasse por dominar o interesse da assistência devido ao seu peso histórico e descontracção em público.

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'Mishima, a Life in four Chapters', foi o seu filme apresentado ontem no Film Forum. Nesta colagem, dita barroca, sobre alguns momentos da vida do escritor/dramaturgo Yukio Mishima, Schrader divide a narrativa em quatro capítulos que englobam fases da adolescência tardia até ao culminar da sua vida por hara-kiri, consequência de uma estrondosa e fracassada tentativa de coup d'état. Para além de fragmentos biográficos, Schrader inclui igualmente personagens literárias de Mishima que funcionam como metáforas e referências da vida do irreverente japonês. Explica que o fez pois o universo de um escritor, é —mais do que qualquer outro— o literário. Sendo os quatro capítulos de carácter temático e não cronológico, o realizador utiliza diferentes processos de registo dentro de cada um ao longo dos 120 minutos: preto e branco para o passado remoto; cores pouco saturadas e o estilo documental do cinéma vérité para o desenrolar da acção final; cenários oníricos com cores fortes para o universo paralelo das suas personagens literárias.

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Paul Schrader revelou histórias de produção que neste filme adquirem uma dimensão hilariante. Sendo o filme relacionado com uma figura-central do pós-guerra japonês filiada numa ideologia de ultra-direita e paralelamente homossexual, foram vários os grupos que promoveram o boicote das filmagens. Como Schrader explicou e com piada, depois de os produtores japoneses darem secretamente o dinheiro, desvincularem-se publicamente e de ficar mais do que assegurado que o filme nunca iria ser comercializado no Japão, 'Mishima, a Life in Four Chapters' foi produzido por ninguém e feito para ninguém.

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Quando confrontado com a questão de porquê Mishima, Schrader explicou a ligação. Tendo um irmão a viver no Japão naquela altura, a aura Mishima tão presente na sociedade nipónica chegou assim também a Schrader. Mas o motivo principal foi outro. Em 'Taxi Driver', que explora entre outras coisas o suicídio glorioso, o realizador foi acusado de brincar com um intelecto mais fraco na criação (e motivação) da personagem Travis Bickle. Schrader encontrou em Mishima o lado oposto, um homem intelectual e culturalmente forte, politicamente activo, (aparentemente) respeitável socialmente e que apesar de todos estes "valores" não deixou de cometer o infame suicídio glorioso.

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'Mishima, a Life in four Chapters' foi concluído em 1985 e ate à data nunca foi admitido nas salas de cinema do Japão.

19.12.08

on bullshit



Ontem à noite, um taxista paquistanês explanava a sua visão política-social numa única e breve sentença: in America it's all bullshit. Em seguida, num tom magoado e revoltado como o de um amante ferido, continuou a sua listagem de queixas sobre o país. Em cada frase repetia que está cá há 35 anos, que é mais americano do que paquistanês e que adora a América, mas lamentavelmente in America it's all bullshit. Porquê, perguntei finalmente. Entre outras coisas, recordo-me da resposta because of the news and the politicians, que muito me surpreendeu, e da women only want sex, no children or family, resposta que me baralhou e surpreendeu ainda mais. Em jeito de conclusão ainda ouvi duas vezes bullshit, believe me, it's all bullshit. Ao sair do carro fiquei a pensar se o homem terá andado a ler Harry G. Frankfurt, o filósofo de Princeton.

Estes senhores dos táxis cá não brincam.

18.12.08

but I do know that, as long as we live, we must remain true to ourselves

Kirk Douglas as 'Spartacus'

uns e os outros

Há mulheres que não lutam pelo que querem, pelo que merecem. Abandonam os seus sonhos, os seus ideais, capitulando-se a tristes fantasmas e a emoções vazias de um passado do qual um dia fugiram. Há mulheres que não lutam pelo que querem, pelo que merecem. Desprotegem-se, baixam a guarda e ficam à mercê de fracas memórias. Desiludidas na longa espera da quimera romântica rendem-se por fim à banalidade, ao mundano que sempre contestaram e acabam traidoras da sua pátria sentimental.

Há homens que têm o que não deveriam. São aves de rapina, abutres que pairam sobre os corpos estendidos e inertes à procura do momento certo para o saque e o esventramento. Há homens que têm o que não deveriam, que pilham a fragilidade alheia e se alimentam cobardemente dos despojos emocionais.

17.12.08

sunday ny times

Dando o pesado jornal de Domingo para uma paulatina leitura nas idas ao water-closet durante o resto da semana, descubro que: 1) dos 10 melhores livros de 2008 pelo Book Review não li nenhum; 2) que nos anos 1970 o crítico Gene Thornton comparou a importância da análise social do 'The Americans' de Robert Frank ao 'De la démocratie en Amérique' do Tocqueville; 3) que o poeta latino Marcus Valerius Martialis foi um precursor do género dirty bukowskiano na Antiguidade; 4) que Clint Eastwood's 'Gran Torino' foi, entre outras coisas, filmado em 32 dias; [dado que fica aqui para o nosso reconhecido especialista eastwoodiano analisar]; e 5) que um jornal diário, em tempos de crise, também funciona como um semanário.

the art at the mall

Se pensarmos que em inglês a palavra «mall» pode significar alameda ou passeio pedestre mas igualmente mercado ou centro comercial, será correcto afirmar que assim Nova Iorque, tal como Washington, também tem o seu National Mall.

No Moma, 'the art at the mall'.

journals & notebooks



Dei-lhe uma vista de olhos na livraria.
Teria dado, de facto, uma blogger assídua.

mister president

Passei pela Casa Branca e encostei-me uns minutos às grades do Relvado Sul. Uma assistente pública muito zelosa que passava naquele momento disse-me que estávamos todos (aqueles que como eu só viam a relva, os esquilos e uma coisa branca tipo casa colonial lá muito ao fundo) com muita sorte pois o Senhor Presidente estava nas imediações. A treinar os reflexos? perguntei com um sorriso malandro. Nem me respondeu.

Washington DC, um par de detalhes

Washington (Disctrict of Columbia) é a capital política dos EUA mas também é a histórica; num sentido diferente em que Philadelphia poderá igualmente sê-lo. Na alameda megalómana do National Mall —a milha que separa o Capitólio do Lincoln Memorial na margem do Potomac— encontram-se os diversos museus da Smithsonian Institution. No Air and Space Museum está representada, como o nome sugere, a história da aviação e da conquista do espaço desde o início da Guerra Fria. Depois a história política, social e natural do país divide-se por diversos museus específicos como National Museum of American History, o National Museum of the American Indian e o National Museum of Natural History. A par da Smithsonian Institution, existem ainda nas proximidades do National Mall o Holocaust Museum, o National Archives, a Washington Historical Society e a Library of Congress. Quanto a Arte, A National Gallery (sobretudo a East Wing de arte contemporânea) e a Hirshhorn Gallery completam o roteiro e são referências obrigatórias.

Por último, convém assinalar que as estacões de metro da cidade —especialmente as vertiginosas Woodley Park-Zoo e Dupont Circle— são (a par da de Cambridge, Boston) dos melhores exemplos do 'Brutalismo' em espaços de circulação pendular na East Coast norte-americana.

15.12.08



Uns dias em Washington.

History as a Travelogue.
The Travelogue as History.

a midnight valium for a good night's sleep

Não te esqueças do que te disse. De como foi com as suas personagens e cenários que a geografia nocturna da cidade que nunca dorme começou a enraizar-se no meu imaginário. Tinha por aquela altura uns doze anos; só depois apareceu o cinema como referência de fantasias malditas. Ninguém o conhecia, lembras-te de comentar-te num táxi pela Madison? excepto guardas-nocturnos em edifícios desertos e amantes da literatura policial com a idade dos nossos pais. A pulp-fiction ainda não era culto, era apenas uma consequência do vazio do pós-guerra já algo esquecida na revolução da pós-modernidade. Anos antes de tudo isto já lhe chamavam mercenário na América; apontavam-lhe o dedo por escrever por dinheiro. Não era novidade, ele sempre o admitiu e esfregava na cara dos críticos as suas estatísticas de best-sellers suportados pelos mecânicos, operários fabris e donas-de-casa do all american dream.

Foi um tipo mau, mas não tão mau como os piores dos seus livrinhos de pasta de papel; andou por um circo, foi piloto de paz em tempos de guerra, tornou-se brevemente um actor medíocre de si mesmo e bebeu mais whisky que dois homens de barba rija juntos. Às mulheres chamava dolls e à sua personagem melhor do que todas as outras chamou Tiger Mann, o amoral tigre solitário nas ruas frias e cinzentas de Nova Iorque. Foi com ele que tudo começou. Nas páginas da Colecção de Bolso da Vampiro há vinte anos atrás.

**

Por isso, agora diz-me: que mais há a fazer? Entre ti que cresceste com Enid Blyton e mim que cresci com Mickey Spillane?

13.12.08

o grunge,

Mr. Bukowski and Lady Friend

antes do grunge.

12.12.08

360 days in Lisbon

Ao início falava sempre no Futuro do Indicativo, o verbo da promessa e da ilusão. Depois passou para o Pretérito Imperfeito, o do passado e do descontentamento. Inevitavelmente acabou no Imperativo, o da indiferença e da autoridade. Assim foi uma história a dois, brevemente resumida por três tempos verbais.

36 hours in Lisbon

Pela segunda vez num espaço de 4 meses o 'Travel' do NY Times refere Lisboa.
'36 hours in Lisbon' é o título do artigo no próximo jornal de Domingo.

Também dava um bom título para um filme do Mike Figgis.

11.12.08

'nada de melancolia'



Pedro Mexia apresenta o seu novo livro, 'Nada de Melancolia', amanhã à noite no Incógnito. Eu, que gosto muitíssimo de ler o Pedro Mexia e que gosto de beber uns copos no Incógnito, não poderei estar presente devido à distância oceânica. Desta forma, não me resta mais do que esperar para que o vídeo apareça no Youtube. Ficam assim o pedido aos entusiastas do 'broadcast yourself' para o upload online e a foto nada melancólica (por Slim Aarons nos anos 70) para o nosso estimado autor.

as in bento box

Éramos apenas meia dúzia de gatos-pingados —malta nova, acrescento— na sessão de autógrafos do mestre octogenário Elliott Erwitt; (o que foi bom, dando assim oportunidade para uma breve interacção). Comprei o 'Elliott Erwitt's New York' e ele perguntou-me o meu nome ao pegar na caneta. Pedro Bento, respondi, Bento as in bento box.

Comecei a utilizar o termo comparativo como uma forma prática de terceiros compreenderem rapidamente o nome sem eu ter necessidade de soletrá-lo, (como têm de fazer muitas pessoas; sobretudo aquelas que se chamam por exemplo Schwarzkopf, Oshimura ou Wiedey). Significando bento almoço em japonês e havendo bentoboxes em qualquer take-away sushi por mais de 7.99, o nome é assim amplamente reconhecido na cultura urbana. Com o tempo compreendi que para além de prática, a expressão também resultava como uma piadola banal e fácil. No entanto, Erwitt, ao contrário da sua assistente, não sorriu. Esperou; sorriu depois, ao entregar-me o livro e ver a minha cara.

To Pedro Bento (Bento as in Bento Box).

poolside with slim aarons

Slim Aarons foi um fotógrafo do Luxo. Do lazer e do hedonismo. Das praias da Riviera Francesa e dos clubes de Marbella. Das estâncias dos Alpes e das regatas mediterrânicas. Foi um fotógrafo dos famosos, das estrelas de cinema, dos socialites. O seu livro 'Poolside with Slim Aarons' ilustra o zeitgeist dos anos 60 e 70 nas esferas do jetset original. De registos fotográficos sobre o lazer, antes dele estava Jacques-Henri Lartigue na aristocracia de princípio de século XX; depois dele veio Martin Parr trazer o sabor do «povo de Thatcher» in vacations.

Aarons iniciou a sua carreira como fotógrafo do exército norte-americano. Mais tarde combateu na Segunda Grande Guerra chegando a ser condecorado por mérito. Graças à traumática experiência criou o original aforismo "a única praia onde que vale a pena aterrar está decorada de bonitas mulheres seminuas bronzeando-se debaixo de um pacífico sol".

Concordo. Tristezas não pagam dívidas.

8.12.08

harry's still dirty

em romaria

A cidade está para romarias. Os trabalhos de William Eggleston no Whitney, de Susan Meiselas e de Cornell Capa no ICP, de Catherine Opie no Guggenheim. As presenças de Martin Parr e Elliot Erwitt na Strand e de Annie Leibovitz na B&N de Union Square. A cidade está para romarias.

7.12.08

das equipas de dois

Há equipas de dois nas quais 1+1 é igual a Um.
Há equipas de dois nas quais 1+1 é igual a nenhum.

6.12.08

da pequenez

Na vaga portuguesa de emigração cultural encontro com rara frequência, mas encontro, artistas plásticos e actores. Ao observar os comportamentos de alguns não posso deixar de questionar-me. Eles saíram do estrelato da pequeno-burguesia, mas terá o estrelato da pequeno-burguesia saído deles?

5.12.08

gas station

Copyright PDB

3.12.08

nas paixões,

algumas mulheres são como os boomerangs.
Voltam sempre à mão que os lançou.

uma vez e todas as outras vezes

Uma vez disse-lhe que um dia, depois de acabarmos, ela voltaria a estar com ele; com aquele com quem ela esteve na sua vida antes de qualquer outro, com aquele com quem ela esteve na sua vida nos intervalos dos demais. Ela respondeu-me que não, nunca, até jamais, em francês. Eu disse-lhe que sim, vais ver, e ela nunca acreditou. Agora, passado tanto tempo, finalmente viu.

2.12.08

dos tributos (a Belle)

Suzuki por Araki

Noutro suplemento do NY Times, (os dois quilos do jornal de Domingo dão para alguns dias), encontro no espaço de uma semana outro tributo a Catherine Deneuve em 'Belle de Jour'. Desta vez não com Kate Winslet mas com Sawa Suzuki. Pela objectiva de Araki, o eterno fetichista, aqui muito, muito comedido.

1.12.08

eleven, ou o quarenta e cinco

Acabo de ler num destacável do Times que a Kate Winslet calça o mesmo número que eu.
"Grande mulher"; agora sim, literalmente.

30.11.08

Dia de Graças

Por alturas do all american family weekend a leitura de 'August: Osage County' é algo irónica. Utilizando a lógica —imediatamente por aqui adoptada— do obituário do NY Times que diz que se A e B dessem um fruto esse seria C, poderíamos dizer que se Eugene O'Neill e John Cheever dessem um fruto esse seria Tracy Letts. Tal como em 'Long Day's Journey into Night', de O'Neill, a narrativa de 'Osage County' evolui consideravelmente (mas não totalmente) em redor da degradação física e psicológica da matriarca e das consequências e rupturas que daí derivam. No entanto, Letts sai da análise restrita às tensões emocionais do núcleo familiar revelando também ecos da sociedade —o mundo exterior— através da diversidade das suas personagens. Esta diversidade expõe contrastes geracionais e geográficos no ambiente suburbano da classe média/alta norte-americana, o conhecido terreno das short stories de Cheever. Delírios com humor mórbido em redor de uma mesa repleta. Ideal para um Dia de Graças.

27.11.08

à mesa

'La Grande Boufee', de Marco Ferreri 'O Festim de Babette', de Gabriel Alex

O deboche e a circunspecção.

la grande bouffe

Ontem, véspera do Dia de Graças, o mercado de rua de Union Square estava mais cheio do que o habitual. O número das bancas de venda também dobrava o normal dos dias de semana. Centenas de pessoas movimentavam-se entre as preciosidades frescas vindas das quintas upstate new york: vegetais, carne, bolos, compotas, mel, plantas aromáticas, flores e queijos. Celebrando-se hoje o Thanksgiving Day, o Grande Feriado Americano, as famílias juntam-se por todo o país. Esta celebração —de origens religiosas que o tempo transformou em secular— é por tradição um dia dedicado ao acto de comer; o peru, sempre, mas também pretexto para outras (e muitas) variações gastronómicas.

Resumindo, o Thanksgiving Day é como aquele filme do Marco Ferreri: comer até rebentar.

26.11.08

mumbai

Por vezes falamos da sua cidade-natal, que deixou com dois ou três anos, e das diferentes impressões e recordações que temos da mega-city indiana. Falamos das suas visitas anuais aos avós durante a infância e das memórias que retém desse período: da gastronomia ao calor húmido; dos cheiros fortes às cores intermináveis. A minha relação com a cidade é naturalmente menos emocional. Ao contrário de si, não tenho por lá qualquer laço sentimental e visitei-a apenas por períodos fugazes de passagem para outro sítio. Uma vez, no entanto, deixei-me estar mais tempo do que deveria ter-me permitido. Alojado numa pensão muçulmana onde os corvos me acordavam de madrugada pela gelosia partida, vasculhei a cidade até ao meu limite, procurando assim vencer a cobardia das vezes anteriores. De Bandra a Darukhana, de Mahim a Chembur, assisti à miséria na terra, onde pessoas e animais partilham chão e a água.

Tenho-a agora aqui à minha frente, esta colega indiana, que chora discretamente pelos ataques terroristas em Bombaim de há algumas horas atrás. Nos dias de hoje já não tem lá família, mas chora pelos continuados esmagamentos e violações das suas memórias de infância — pelos continuados esmagamentos e violações de uma liberdade pueril e remota.

I can't get over it, confessa-me.
Deixo-a então sozinha com as suas recordações.

femme fatale

O termo é uma grande redundância.
As mulheres, como é sabido, são sempre fatais.

25.11.08

a medida de Deus à medida do homem

Claro que a Enciclopédia, sendo universal, já tinha nas suas múltiplas entradas algumas fotos-tributo de Kate Winslet a Catherine Deneuve. Num exímio trabalho de pesquisa antropológica e de rigor científico, a Enciclopédia demonstra a derradeira resolução: Deus não criou apenas a mulher; Deus diverte-se agora a aperfeiçoá-la cada dia que passa.

24.11.08

arthur miller's all my sons

Na leitura de 'All My Sons' (1947), de Arthur Miller, sobressai o confronto entre o dever moral e a cobardia na negação das responsabilidades pessoais perante a sociedade. Nesta paralela crítica à fragilidade do american dream e ao oportunismo do lucro em tempos de guerra, Miller faz também um retrato da família norte-americana no contexto social pós-conflito, expondo as consequentes fragmentações emocionais de diversos ângulos. A acção decorre em menos de vinte e quatro horas, herança da tragédia grega que Molière já recuperara no século XVIII, mas os elementos fundamentais para a base da narrativa estão dispersos no passado. O momento da acção descobre uma culpa adormecida que na realidade se torna num veículo que transporta para palco outras questões universais: o vazio da morte, as deficiências de carácter, a hipocrisia da sociedade.

Pela crescente carga dramática desta peça, que apesar de tudo começa num registo leve e cordial, foi com algum preconceito que me arrastei ao Schoenfeld Theatre. A localização do teatro e o elenco super-star pareciam antever que 'All My Sons' —embora Miller a tenha escrito numa última tentativa de sucesso comercial— não passaria de uma manobra-de-diversão. Foi um preconceito injustificado, (ou vencido, como em Marivaux) pois acabei por achar que esta adaptação do encenador britânico anti-naturalista Simon McBurney se revelou justa ao teatro naturalista de Miller. E se esta adaptação foi fiel aos diálogos e à ideia de espaços e tempos verbais, alguns movimentos, comparando com a impressão que tive aquando da leitura do original de Miller, resultaram desnecessariamente forçados e despropositadamente histriónicos. Por seu lado, o contraste entre a cenografia minimalista de Tom Pye, seu colaborador na Complicite, e o cenário realista minuciosamente descrito por Miller no Primeiro Acto acentuava a adaptação contemporânea de McBurney. Quanto aos actores, percebiam-se claramente as diferenças de método entre a escola do Teatro e a do Cinema, entre John Lithgow e Patrick Wilson, entre as posturas mais rígida e propositadamente artificial e a mais dinâmica e real. Talvez por esta componente, juntamente com os efeitos vídeo/som, esta peça tenha surtido um efeito algo cinematográfico. O que não é mau de todo.

belle de jour

Kate Winslet - WOW factor - na Vanity Fair de Dezembro 2008

Kate Winslet, melhor do que nunca, {veja-se o meu sorriso}, na Vanity Fair deste mês num surpreendente tributo a Catherine Deneuve em 'Belle de Jour'. Coloco aqui uma foto que encontrei online deixando as restantes para mais uma nobre tarefa da Enciclopédia Universal.

21.11.08

dos planos

O Estado de Nova Iorque alerta constantemente, ou aconselha, as pessoas que residem no seu território a criarem um plano de emergência familiar para usar em caso de catástrofe. O conselho é razoável pois é fácil imaginar o caos —devido a terramoto, terrorismo ou qualquer outro cataclismo— que o colapso das infrastruturas de telecomunicações e transportes pode causar. Esse plano é baseado nesta presunção; nesta alta probabilidade de que todos os meios que normalmente dispomos não funcionam: metro, autocarros, telefones e internet.

Naqueles tempos de início de Primavera combinámos o nosso plano de fuga em tempos de caos. A rota seria por terra, para o lado da vastidão da grande paisagem americana —o lado de Jersey— e não para a península de Long Island encurralada pelo mar. Estudámos o mapa e por fim escolhemos como ponto de encontro fixo em remoto dia de Inferno a extremidade do lado de lá da George Washington Bridge, a uma distância de quatro horas a pé do centro da cidade. O primeiro a chegar espera, disse eu; no matter what. Eu não espero, respondeu-me ela; no matter what.

Os dias passaram e lentamente esquecemos o plano. O caos da incomunicabilidade, afinal, já estava presente e não havia nada mais a fazer. Umas semanas depois esquecemo-nos um do outro.

mais de 20 000

No edifício onde trabalho vive um senhor mais velho, por volta dos seus setentas, que é (ou foi) um conhecido crítico gastronómico do NY Times e de outras publicações. Neste edifício, uma antiga fábrica de têxteis dos anos trinta, as entradas para os diversos pisos fazem-se pelo elevador de carga cuja porta abre directamente, andar após andar, para amplos espaços agora recuperados a novos usos. Uma vez por outra, comigo lá dentro, o elevador pára no segundo andar para entrar a assistente com o cão do dito senhor. Nos escassos segundos em que o cão entra a olhar para mim e em que a senhora entra a refilar com o cão vejo confortavelmente uma pequena parte da casa. As janelas para a 17th Street invadem de luz a zona que é o seu local de trabalho. Geralmente ele encontra-se lá, sentado numa secretária metálica de costas para a porta, vestido de roupão de veludo rodeado por pilhas de papéis e revistas. A parede à sua frente está repleta de livros, do chão ao tecto, em prateleiras que começam ao lado da janela e continuam para fora dos meus reduzidos dez metros de raio visual. Um dia perguntei à assistente quantos seriam. Mais de 20 000, foi a resposta.

Fiz de seguida as contas.
Dá um livro por dia; durante todos os seus dias de homem adulto.

19.11.08

a velocidade fulminante

A velocidade fulminante que transforma a «paixão» em «desprezo» vem manifestamente descrita em diversos anúncios de automóveis: dos zero aos cem, em seis segundos.

a lição

É ingenuidade pensar que podem durar, que serão longas, que serão para sempre. As relações, durem cinco dias ou cinco anos, têm sempre uma morte anunciada; apenas inicialmente disfarçada e maquilhada pela ilusão. Como começam, invariavelmente acabam, fazendo com que se tornem em objectos coleccionáveis —uns atrás dos outros— meio perdidos, meio esquecidos —uns mais do que os outros— amontoados a ganhar pó numa prateleira ao longo da vida.

Por tudo isto, deveriam ensinar na escola: milagres só na Bíblia. E poupavam a todos os futuros adultos muito, muito trabalho.

14.11.08

everyman

Perguntou-me o que quis dizer com flexibilidade da condição humana. A resposta poderia ser dada com base num chavão intemporal — utilizando a sempiterna Humanidade como protagonista — mas também poderia ser fundamentada em experiências pessoais. Falei-lhe por isso de mim, ao invés de falar de outros, mas tendo a certeza que falando de mim estaria simultaneamente a falar de muitos mais. As experiências, embora de alguma forma únicas e pessoais, são também gerais e universais aos olhos dos tempos; ou da teoria de Lavoisier, pelo menos.

Assim, utilizando este conceito da flexibilidade da condição humana, refiria-me a como os golpes do Acaso (os maus e os bons) e as consequentes metamorfoses que eles provocam do ponto de vista físico, emocional, económico e social confrontam a capacidade humana de adaptação (uns mais do que outros) aos novos padrões, às novas regras, aos novos defeitos e até aos novos predicados. Esta flexibilidade é um reflexo do instinto de sobrevivência e é uma subliminar constante, quase inconsciente.

Se somos estóicos — e seremos? — por enfrentarmos a Vida & Morte, não é por um acto de coragem mas por ser a única opção. É-nos colocada de bandeja, a vida, com um prazo incerto, a morte. É este hiato temporal — o processo irreversível da infância para a velhice que marca desde logo o princípio do fim — no qual a condição humana varia. Num quadro imaginário podemos conceber as vidas dos outros: linhas serenas e predominantemente horizontais para uns, vertiginosas parábolas para os restantes; sendo estas linhas referentes à miséria e à fortuna, à saúde e à doença, ao amor e ao ódio.

Depois dei um exemplo: o meu, que almocei nos cinco estrelas e dormi num banco de jardim; que velejei no Hudson e dormi num banco de jardim; que tive garrafa no Tenjune e dormi num banco de jardim. Ao todo —acto que ofendeu os poucos amigos chegados— foram três as noites passadas num banco de jardim na cidade que nunca dorme. Mais do que nunca, foi nessa altura que me fixei nas palavras de Bukowski:

if you’re going to try, go all the way / otherwise, don’t even start.

Agora, passados largos meses, a minha reacção a tão aventuroso episódio é exactamente a mesma daqueles dias de Verão: nada de extraordinário, apenas um efeito da flexibilidade da condição humana; tão pouco um acto de miséria, de coragem ou de loucura. E volto a fazer tudo o que fiz antes de dormir num banco de jardim, sabendo que o banco de jardim, esse, estará lá sempre à minha espera.

13.11.08

those ghostly traces, photographs

'My Mother', copyright_Lorie Novak

12.11.08

mrs. way

Perto da esquina da Strand Bookstore reconheço a cara da senhora por detrás de uma banca que vende luvas e cachecóis. Dirijo-me a ela, cumprimento-a e digo-lhe que gostei muito de vê-la em palco há uns dias no boteco familiar do Harlem. Surpreendida, sorriu e agradeceu-me. Em que dia, perguntou por fim. No do Obama, respondi. Os olhos dela brilharam enquanto se lembrava daquelas horas de festa e dos minutos em que subiu ao tosco estrado de madeira. Depois, com a voz profunda da soul carregada de sotaque afro-americano e rouca por décadas de noites demasiado longas, confessa-me: ya know, baby? I'll never forget tha' nite.

Deu-me o seu endereço do myspace no final da breve conversa. Oiço-a agora, enquanto penso na flexibilidade da condição humana em todos nós.

11.11.08

'play the piano drunk like a percussion instrument until the fingers begin to bleed a bit'

Com este título, seria impossível não comprar o livro.
Ainda por cima sendo de quem é.

big lebowski (3)

Na leitura de 'Film Noir', do britânico Mark Bould, deparo-me com um conceito interessante: 'Big Lebowski', que também é um neo-noir muito peculiar, é o Raymond Chandler dos irmãos Cohen. Tem um anti-herói, tem confusão, traição, mulheres fatais, crápulas, raptos, armas, morte e Epílogo. É bem verdade, esta pequena curiosidade.

sexy, scary, and often naked



A BAM Cinematek, em Brooklyn, tem um ciclo sugestivamente intitulado "Sexy, Scary, and Often Naked". O mais recente foi dedicado à esguia e letal Asia Argento. Aqui em 'Boarding Gate', um filme de Olivier Assayas. Mais uma vez, cá está ela: sensual, assustadora e frequentemente (quase) nua.

10.11.08

a densidade, os 'wow buildings', as vantagens da crise, a crise da crítica e por aí fora

Ontem, no suplemento 'The City' do NY Times, a crítica octogenária Ada-Louise Huxtable falava do que sabe melhor: da sua cidade. Uma entrevista de Phillip Lopate.

{How can I be against density? I’m a New Yorker. I grew up with density.}
{[...] in a way I’m glad for this downturn in the economy. Because so much bad stuff was being built.}
{The Museum of Modern Art has become a real estate operation. I admit a certain amount of nostalgia: I remember a street that was once one of the best streets in New York, 53rd Street.}
{Bloomberg’s a businessman: he thinks development is planning.}

e por aí fora.

6.11.08

o meu tributo

Copyright PDB

a Vadim Yusov.
(tríptico, NYC, Julho/Setembro 2008)

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election night

A um dado momento da noite meti-me num táxi e subi, ladeado pelo Hudson River, as cento e trinta e tal ruas que me separavam da minha espelunca favorita de jazz no Harlem. Nos vinte minutos da viagem pela auto-estrada deserta via apenas as luzes do lado de Jersey, os estranhos reflexos por elas criados nas águas de um rio escuro e a passagem ocasional de algum carro na faixa contrária. Na rádio passavam de novo os discursos, o de McCain, o Homem, e o de Obama, o Messias. As palavras de ambos voltavam a encher-me a cabeça, mas agora de uma forma distante, algo ausente. Nesse momento apercebi-me que há muito tempo não encontrava tamanha quietude neste descomunal e denso contexto urbano, deixando assim os pensamentos fluírem sem rumo pela janela semi-aberta.

No Harlem, por sua vez, a euforia já enchera as ruas horas antes. Quando desci os quatro degraus e entrei no bar despertei finalmente da viagem letárgica. Músicos e espectadores juntavam-se no palco — que na verdade nem em tempos idos teve fronteiras muito definidas — e cantavam em uníssono Obama, Obama num tom de reminiscências tribais. Apesar de por aquela altura já ter passado um bom bocado da uma da manhã, a festa estava apenas a começar.

5.11.08

quando o mundo parou

Quando o mundo parou estava eu num boteco de emigrantes em Greenwich Village. Por seu turno, em Chicago, Obama pisava o palco e recebia a ovação dos milhares que estavam à sua frente; recebia também a ovação das dezenas que estavam à minha volta, a centenas de quilómetros de distância de si. Começou o discurso de vitória; agradeceu, em primeiro, enalteceu, em segundo, e prometeu, em terceiro. Foi um discurso firme, sentido, emocional. O momento era histórico e as palavras de Obama traziam aquilo que muitos estavam à espera há demasiado tempo — change and hope, o que quer que isso signifique. Por um momento recuei até à porta e espreitei a rua deserta e estática, um cenário irreconhecível da cidade que nunca dorme. Depois olhei à minha volta e não vi em toda aquela gente mais do que concentração, focagem; transe até, ou talvez. A voz de Obama trazida pelo televisor na parede hipnotizava todos os presentes. Por esta altura já não havia piadas, sussurros, desinteresse.

Lembrei-me então daqueles filmes em que o mundo pára em redor de uma notícia e é-nos mostrado o efeito global em suaves dolly shots com cores saturadas: uma família de agricultores no Arkansas em frente à televisão, um punhado de indianos à volta de um radio em Benares, uma multidão em África que escuta alguém que de megafone traduz a informação, um molho de gente num café de um qualquer vilarejo em Itália. Ontem — naqueles exactos minutos — foi um desses momentos em que o mundo parou; e mais uma vez a realidade superou a ficção.

4.11.08

election day

Hoje a cidade despertou mais frenética do que o habitual. Na 16th Street com Union Square, a fila para votar chegava à ponta do quarteirão da 5a Avenida. Ainda não eram sequer nove da manhã. Parei um pouco para observar discretamente a multidão, essa curiosa e extraordinária prova da variedade da espécie humana. Dezenas de pessoas paradas à espera; impacientes, por um lado, mas ao mesmo tempo eufóricas, vítimas de uma estranha energia. Palavras como mudança ou esperança saltavam das conversas entre desconhecidos. Uns falavam por todos, outros abanavam apenas a cabeça em tom concordante. Naqueles breves minutos não houve discussões nem opiniões contraditórias. Sentiam-se, de algum modo, cruzados da mesma guerra, soldados filiados numa mesma moralidade. Deixei-me estar ali a olhar para todos e a pensar que afinal tão diferentes, tão iguais.

Não dura muito.

1.11.08

a geografia nocturna

'The King of New York'

De Abel Ferrara.

30.10.08

i own the night

'King of New York', (1990), de Abel Ferrara

'King of New York', (1990), neo-noir de Abel Ferrara, impressionou-me tanto por aspectos tão variados — do under-acting de Christopher Walken à raiva de David Caruso; ou do argumento robin hoodesco de Nicholas St. John à fotografia crua e fria de Bojan Bazelli — que tive de vê-lo duas vezes seguidas no espaço de 48 horas. E há ainda outro aspecto muito importante para esta súbita obsessão: a maneira como Abel Ferrara transporta a geografia urbana e nocturna para o processo da narrativa: a cidade não é apenas o cenário, ou o background da acção, mas assume-se como outro protagonista, contando-nos mais do que aquilo que aparentemente vemos e ouvimos; através da exposição de algumas características sociais (e por conseguinte físicas) muito particulares remetentes a uma Nova Iorque que praticamente já não existe. Neste contexto da morte da cidade lêem-se nas entrelinhas duas abordagens distintas mas inseparáveis: o fim de uma moralidade aparente e o desaparecimento da Americana, o suporte quasi-ideológico de uma nação. Talvez um elemento importante seja pensar que Ferrara nasceu no Bronx e a paisagem de decadência urbana, derivada de múltiplos factores sociais, faz parte da sua memória individual.

Também no que toca à memória — e agora referindo-me à colectiva — é a Nova Iorque de Ferrara que (ainda) pulula no imaginário global. A dele e a de Paul Schrader, de Martin Scorsese, de Adrian Lyne ou até a do novato James Gray. O que é compreensível, pois uma cidade que nunca dorme que seja asséptica, impoluta e cândida não interessa a ninguém. Ou não interessa, pelo menos, a mim.

29.10.08

da hiper-modernidade

Dizem-me que menciono muito por aqui esta coisa da hiper-modernidade. Pois bem, resta-me dizer que depois de ler 'Les Temps Hypermodernes' do Lipovetsky e de em seguida vir viver para esta cidade é impossível não o fazer. Mais do que em qualquer outro Lugar, a América é o palco do hiper-consumismo, do hedonismo forçado, da liberdade condicionada, do individualismo emocional, da misantropia social.

Falo, portanto, com conhecimento de causa.
Por vezes como testemunha, por vezes como protagonista.

o grande lebowski (2)

Em 'Big Lebowski', os irmãos Cohen fazem em 100 minutos de cinema o que Eric Bogosian fez em palco ou Lee Friedlander fez com a fotografia: cobrir o largo espectro da diversidade social pós-moderna norte-americana. Mas no caso dos Cohen, claro está, interessaram-lhes apenas os extremos caricaturais.

o grande lebowski

'The Big Lebowski'

'Big Lebowski' (1998), dos Cohen Brothers, é um dos filmes com mais citações e com um maior reflexo posterior na sociedade. Para além dos Lebowski Fests e dos Dude Fests, por toda a parte é frequente encontrar T-shirts, posters e autocolantes com frases da sua mais que heterogénea galeria de personagens (por actores como Jeff Bridges, John Goodman, Steve Buscemi, Philip Seymour-Hoffman, John Tuturro, Peter Stormare). Porém, há uma que parece escapar à febre deste primeiro filme de culto da 'Internet Age' como lhe chamou o crítico Steve Palopoli: Ben Gazzara como Jack Treehorn, o produtor pornográfico de Malibu. Gazzara na realidade mais parece uma versão envelhecida de Cosmo Vitelli, ele próprio como o "empresário da noite" do 'The Killing of a Chinese Bookie' do Cassavetes — o que num filme que joga propositadamente com pastiches, adaptações, referências (e reverências) a outros momentos da história do cinema faz com que isso seja muito natural. Jack Treehorn, o produtor, solta o chavão do meio profissional com a expressão: People tend to forget, but the brain is the biggest erogenous zone of them all.

Nunca vi nenhuma T-Shirt com isto.

28.10.08

o seu duplo perene

Zoë Lund, em 'Ms 45'de Abel Ferrara, USA 1981

contida mas ainda assim distante

Penso que uma recusa, contida mas ainda assim distante,
Afastará de todo o sempre galã errante.

Elmire, a mulher do pio Orgon em 'Tartuffe', explica ao marido um dos (muitos) métodos femininos de anti-avanços masculinos. Acrescento que a desastrosa tradução (que fiel a Molière deverá rimar) é da minha inteira responsabilidade: não tão baseada no que li, mas sim no que vivi.

27.10.08

tartuffe, o eterno gajo do lado

Tartuffe, le hypocrite de Molière, é o parasita, impostor, oportunista e falso pregador moral que vive da bondade, da ignorância e do zelo alheios. Tartuffe, le hypocrite, estará sempre no meio de nós.

26.10.08

um profeta

Sendo as suas personagens mais famosas homens hipocondríacos e misantropos, será naturalmente justo dizer que Molière foi um profeta da hiper-modernidade. Antever a prozac nation merece todo o mérito que lhe possamos reconhecer. Especialmente com três séculos de antecedência.

24.10.08

a little bit of color

'Point Blank', (1967)

23.10.08

a história interminável

Das mulheres que olham para os homens há dois grupos: as que olham para os homens porque gostam de ver homens e as que olham para os homens apenas para ver se os homens olham para elas.

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O que talvez grande parte deste último grupo não saiba é que dentro dos homens que olham para as mulheres há dois grupos também: os que olham para todas as mulheres e se fixam posteriormente apenas nas giras; e os que olham para todas as mulheres e que para além de o fazerem com as giras também se fixam nas feias a lamentarem-se interiormente por elas não serem como as giras.

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Dentro do grupo de mulheres (e não são poucas) que olham para os homens apenas para ver se os homens olham para elas e que sabem que dentro dos homens que olham para todas as mulheres há dois grupos, há ainda dois subgrupos: as que acham sempre que pertencem ao grupo em que os homens olham para elas e se fixam por serem giras; e as que sabem que os homens também se fixam nas feias e acreditam sempre que as feias não são elas mas sim a amiga do lado.

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Dos homens que sabem que há mulheres que sabem que eles olham para elas por serem giras ou que olham por serem feias, há também dois subgrupos: os que olham com base em tudo o previamente explicado; e os que fazem exactamente tudo ao contrário só para confundir.

a midnight valium for a good night sleep

Pergunto-me, quando a altura chegar, que nome direi no meu leito de morte? Será o teu? Ou outro qualquer que os anos, a vida, o cansaço, as insónias e mil e uma aventuras me fizeram esquecer?

O teu, seguramente.

dica para os comilões; um três-em-um no NoHo

Onde saborear comida crioula, beber Pabst Blue Ribbon por $2.99 e assistir à Music and Film NY Marathon ao vivo numa cave em Nova Iorque? O Ace of Clubs, em Great Jones Street no NoHo, é a resposta. Fica o aplauso para os We Are Standard, de Bilbao. Ao vivo.

22.10.08

bem vistas as coisas,

um blogue iconoclasta dá menos nas vistas no ecrã do local de trabalho.

a vizinhança

Na pizaria da esquina da Metropolitan Ave, em Williamsburg, está o melhor conjunto de wiseguys da cidade. Durante o dia, nos seus fatos de treino, camisolas de alças ou de fato e gravatas coloridas, reúnem-se à porta a ver quem passa; sobretudo as broads (género social que a Wikipédia descreve como a woman lesser class then a lady but higher class then a bitch) do bairro. Se está de chuva, fogem lá para dentro e alinham-se no balcão forrado a fórmica branca. As mesas não têm toalhas aos quadrados encarnados nem tão pouco há cartazes de artistas esquecidos ou fotografias autografadas e emolduradas pelas paredes. Esses detalhes ficam para os restaurantes turísticos de Little Italy; aqui a decoração do espaço não interessa muito, o importante é ter perto as fotografias de família ao lado da do santo patrono que dá o nome à casa: a da filha o ano passado, a da mãe pelos anos oitenta e sendo o dono viúvo, está naturalmente a foto da mulher há quinze anos atrás. Se em vez de viúvo ele tivesse sido cabrão, a foto da mulher não existiria mas estaria no seu lugar a de uma tia-avó afastada. Estando a Santa Trindade exposta, o dono tende a torcer o nariz para quem se focar mais de quatro segundos nas imagens. Uma vez cometi o erro de dizer-lhe que a filha era igualzinha à mãe e ele fingiu nem ouvir enquanto roía o palito. Talvez o que ele gostasse de ter ouvido é que a filha é igualzinha a ele. A paternidade é um valor moral e uma questão de honra; sobretudo à frente dos comparsas. Compreendendo tal, foi o que fiz em seguida, roendo também o meu palito acrescentei um and to you too. Há uma quarta foto, longe das outras três e do postal do santo, que mostra o dono e cinco amigos com armas automáticas nas mãos. Sendo a posse legal de armas de fogo o desporto nacional deste país, tal foto não surpreende muito. Mesmo estando os ditos senhores com aquelas fatiotas.

Não vou lá muito.

21.10.08

por vezes

Por vezes, tal como em hora-de-ponta há quebras de tensão, também em momentos de ponta há quebras de tesão.

40 minutos

Hoje o metro L parou. Entre as estações da Segunda Avenida e de Union Square. Parou por 40 minutos, no meio de um túnel escuro. Cheio, à pinha, em hora-de-ponta; com miúdos a caminho da NYU, com white-collars para a conexão de Wall Street, com hipsters a dormir em pé, com mulheres latinas, com mulheres maquilhadas, com ucranianos e comigo no meio de todos a ler o ensaio sobre o 'Homem em Revolta', comprado ontem por $3.99, do Camus. Quando uma senhora teve a primeira quebra de tensão, ia eu na passagem "evil and virtue are mere chance or caprice", ainda na Introdução. Depois lembrei-me da máxima de S. Tomás de Aquino sobre a Virtude também servir maus propósitos, com Acaso ou sem ele, e continuei a leitura confuso. Os minutos passavam devagar e a palavra absurdo pulava em cada linha. Quando outra senhora teve a segunda quebra de tensão da manhã deixei o livro de lado e ajudei-a a sentar-se, num lugar cedido por um halterofilista que devia ter levantado o cu trinta minutos antes. Uns passageiros discutiam ao fundo da carruagem por pisadelas e afins; outros olhavam para o tecto para não gritarem e todos estavam com vontade de andar aos pontapés a tudo. O metro retomou a marcha e eu, um homem em revolta pela perda de tempo, pus o livro de lado ao chegar à rua. Chega de absurdos existencialistas por uma semana, pensei, e fui à pressa comprar o diário sumo de cenoura e beterraba ao deli da esquina com a Dezoito.

Foi aí que fui atropelado. Mas recompus-me num ápice e nem olhei para trás. Um chinês fumador numa bicicleta não faz muita mossa.

20.10.08

o sensual fruto