15.5.08
as quecas por misericórdia, ou um acto de cobardia
Anna: If Alice came to you … desperate … with all that love still between you and she said she needed you to want her so she could get over you, you would do it. I wouldn’t like it either but I would forgive you because it’s … a mercy fuck – a sympathy fuck. Moral rape, everyone does it. It’s … kindness.
Dan: No, it’s cowardice.
'Closer' (1997), de Patrick Marber.
Dan: No, it’s cowardice.
'Closer' (1997), de Patrick Marber.
demasiado perto
'Closer' (1997), de Patrick Marber, já vinha no 'Old Times' do Pinter e antes disso no 'Sommaren med Monika' (1953) do Bergman. E muito antes de vir em todos eles já vinha em todo o lado. Talvez mesmo na Bíblia; ou assim me parece. Mas resumindo e concluindo, nunca foi tão actual.
14.5.08
as mulheres, os homens e o número de homens das mulheres
Quantos tiveste antes de mim? A pergunta salta entre o ciúme dos homens. Para uma mulher nunca interessa saber nem tão pouco responder. Uns seguramente serão esses enganos impossíveis de refazer, outros serão essas paixões impossíveis de ultrapassar. Mas tudo é passado, metido numa gaveta no fundo do subconsciente. O que conta é o Presente. Contudo o ciúme é insensato e imprudente e torna a questão numa cruzada momentânea. O homem e o seu sentido de propriedade & posse, esse perpétuo erro crasso masculino. E por isso, ano após ano, vida após vida, a questão aparece repetidamente até encontrar uma resposta. E qualquer que ela seja — dois ou trinta — para um homem serão sempre demasiados. Melhor nunca perguntar, melhor nunca responder.
Quantos tiveste antes de mim? A pergunta salta entre o ciúme dos homens. Para uma mulher nunca interessa saber nem tão pouco responder. Uns seguramente serão esses enganos impossíveis de refazer, outros serão essas paixões impossíveis de ultrapassar. Mas tudo é passado, metido numa gaveta no fundo do subconsciente. O que conta é o Presente. Contudo o ciúme é insensato e imprudente e torna a questão numa cruzada momentânea. O homem e o seu sentido de propriedade & posse, esse perpétuo erro crasso masculino. E por isso, ano após ano, vida após vida, a questão aparece repetidamente até encontrar uma resposta. E qualquer que ela seja — dois ou trinta — para um homem serão sempre demasiados. Melhor nunca perguntar, melhor nunca responder.
13.5.08
having dogs
Para as mulheres de Nova Iorque os projectos de futuro a dois não se traduzem em having kids.
Ficam-se pelo having dogs. O que diga-se de passagem já é compromisso sério que chegue.
Para antes dos quarenta.
Ficam-se pelo having dogs. O que diga-se de passagem já é compromisso sério que chegue.
Para antes dos quarenta.
12.5.08
chain reaction


Do caderno de Walker Evans para a minha parede.
Da minha parede para este blogue.
E de este blogue para onde calhar.
do cinema e do fascismo
'Scipio Africanus' (1937) é o maior exemplo das superproduções fascistas como actos de propaganda: o cinema como a arma mais forte evoca a superioridade nacional, o militarismo e o heroísmo masculino. O filme, de carácter histórico, explora as conquistas romanas em África durante a Segunda Guerra Púnica e a vitória de Cipião o Africano sobre os exércitos de Aníbal. Mas a mensagem subliminar refere-se ao paralelismo de eventos e ideais entre Cipião e Mussolini e entre a Batalha de Zama e a invasão e conquista da Etiópia em 1935.
É dito que quando Mussolini visitou o local das filmagens os cerca de 6000 figurantes adularam-no com gritos de 'Duce, Duce' e a saudação fascista.
A semana passada Gianni Alemanno, o antigo neo-fascista enfant-terrible, venceu as eleições para o novo mayor de Roma. À semelhança de Mussolini Alemanno tenta agora uma promoção do cinema italiano bloqueando o Festival de Roma, a produção de Hollywood e as suas estrelas. No dia da sua vitória a multidão juntou-se na rua com gritos de 'Duce, Duce' e a saudação fascista.
A História repete-se continuamente a si mesma.
É dito que quando Mussolini visitou o local das filmagens os cerca de 6000 figurantes adularam-no com gritos de 'Duce, Duce' e a saudação fascista.
A semana passada Gianni Alemanno, o antigo neo-fascista enfant-terrible, venceu as eleições para o novo mayor de Roma. À semelhança de Mussolini Alemanno tenta agora uma promoção do cinema italiano bloqueando o Festival de Roma, a produção de Hollywood e as suas estrelas. No dia da sua vitória a multidão juntou-se na rua com gritos de 'Duce, Duce' e a saudação fascista.
A História repete-se continuamente a si mesma.
11.5.08
wall pattern
Percorro a cidade; as livrarias dos museus, os alfarrabistas de bairro, os quiosques de revistas internacionais e termino o dia a folhear o Sunday NYTimes. Tenho mais vinte novos postais e recortes para a minha parede-colagem. É um daqueles tiques, onde quer que esteja tenho de ter uma. Colo lá de tudo: programas do Pordenone Silent Film Festival e a sequência de polaroids que fiz em Coney Island; postais de cinema: do 'Mamma Roma' do Pasolini ao 'Iron Horse' do John Ford; recortes de jornais em halftone e fotografias de Kanemura e Sugimoto.
As imagens amontoam-se dia após dia; mas mesmo assim em nada comparáveis às colecções de Diane Arbus ou de Walker Evans —ambas descobertas em edições sobre as suas vidas e trabalhos não editados onde os títulos explicam tudo: 'Revelations' (a de Arbus), 'Unclassified' (a de Evans).
**
Comparo as composições —as deles e a minha— abrindo os dois livros ao mesmo tempo para rever as fotografias das suas paredes-colagem e cadernos de arquivo de imagens coleccionáveis. Condenados, cadeiras eléctricas, freaks, gémeos, assassinos-procurados, pin-up girls, manuscritos. Tudo na parede de Arbus. Nos cadernos de Evans as imagens de políticos e de trajes africanos e orientais predominam os temas. Mas também há fotos de linchamentos, máscaras de gás e outra vez as cadeiras eléctricas e os assassinos-procurados que resultam nos elementos comuns a ambos. Depois releio alguns textos e apercebo-me o quão próximos estavam os dois um do outro nas suas visões quase diametralmente opostas do mundo.
Seguidamente colo na parede uma série a preto-e-branco de máscaras de gás digitalizada dos arquivos de Evans. Estou confuso, parece-me mórbida; talvez a retire amanhã de manhã e ela venha parar a este blogue. Pode ser que aqui fique mais a condizer. Mas duvido.
As imagens amontoam-se dia após dia; mas mesmo assim em nada comparáveis às colecções de Diane Arbus ou de Walker Evans —ambas descobertas em edições sobre as suas vidas e trabalhos não editados onde os títulos explicam tudo: 'Revelations' (a de Arbus), 'Unclassified' (a de Evans).
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Comparo as composições —as deles e a minha— abrindo os dois livros ao mesmo tempo para rever as fotografias das suas paredes-colagem e cadernos de arquivo de imagens coleccionáveis. Condenados, cadeiras eléctricas, freaks, gémeos, assassinos-procurados, pin-up girls, manuscritos. Tudo na parede de Arbus. Nos cadernos de Evans as imagens de políticos e de trajes africanos e orientais predominam os temas. Mas também há fotos de linchamentos, máscaras de gás e outra vez as cadeiras eléctricas e os assassinos-procurados que resultam nos elementos comuns a ambos. Depois releio alguns textos e apercebo-me o quão próximos estavam os dois um do outro nas suas visões quase diametralmente opostas do mundo.
Seguidamente colo na parede uma série a preto-e-branco de máscaras de gás digitalizada dos arquivos de Evans. Estou confuso, parece-me mórbida; talvez a retire amanhã de manhã e ela venha parar a este blogue. Pode ser que aqui fique mais a condizer. Mas duvido.
9.5.08
a aprendizagem
De há uns tempos para cá também eu estou em autarchia, essa auto-suficiência a vários níveis.
Amizade incluída.
Amizade incluída.
o cinema é a arma mais forte
No final da década de 1920 Pirandello criticava o aparecimento do cinema sonoro como uma manifestação de uma vulgar cultura americana que resultava antiética perante o Teatro e a Arte. Mesmo assim, Mussolini foi tolerante em relação ao som e à hegemonia de Hollywood; em parte devido à ligação dos emigrantes italianos na América, em parte devido ao entretenimento das massas pois a indústria cinematográfica americana assegurava cerca de 70% dos lucros de bilheteira em Itália.
No entanto a tolerância terminou em 1936, ano em que o ditador criou a autarchia, uma doutrina de auto-suficiência nacional a vários níveis; cinema incluído. No ano seguinte inaugurou os estúdios da Cinecittà, palco para superproduções propagandistas fascistas, baseado no lema 'Il cinema è l'arma più forte'.
Oito anos e quase trezentos filmes depois os Aliados bombardearam totalmente as instalações. "O cinema é a arma mais forte?" Eles também sabiam isso.
No entanto a tolerância terminou em 1936, ano em que o ditador criou a autarchia, uma doutrina de auto-suficiência nacional a vários níveis; cinema incluído. No ano seguinte inaugurou os estúdios da Cinecittà, palco para superproduções propagandistas fascistas, baseado no lema 'Il cinema è l'arma più forte'.
Oito anos e quase trezentos filmes depois os Aliados bombardearam totalmente as instalações. "O cinema é a arma mais forte?" Eles também sabiam isso.
reforçar uma ideia
Agora sim, mais do que nunca, estou como o miúdo no filme do Albert Lamorisse. Ele de balão encarnado pelas ruas de Paris e eu de bola de basquete castanha pelas da East Village.
8.5.08
dos ciclos
Estive um ano à espera da publicação de uma coisa e agora, como já diz o ditado que não há fome que não dê em fartura, irei ver isso em três sítios diferentes. Tudo isto deixa-me a pensar em como os ciclos de abundância e escassez fazem parte da vida de um homem em todas as frentes: no trabalho, no dinheiro, na saúde, nas relações sentimentais e até, para mal dos pecados masculinos, no tesão. E ainda por cima, no caso dos últimos dois referidos, há que rezar para que sejam coincidentes. Caso contrário, para mal dos calores femininos, não servem de grande coisa juntos.
6.5.08
das jornalistas asiáticas

A memória cinematográfica de Ariane no 'Ano do Dragão' de Michael Cimino.
E do colchão dela com vista sobre Manhattan.
jornalistas de óculos escuros
Ontem na escadaria do Federal Hall, enquanto saboreava o meu sumo de cenoura e beterraba, uma jornalista asiática de uma cadeia de televisão local encurrala-me numa entrevista surpresa. Quer saber o que acho, como "elemento da Stock Exchange", acerca do mercado financeiro global e sobretudo da presente situação dos Estados Unidos.
Stock Exchange? Eu? Aqui tão sossegado de óculos escuros a ver quem passa? Olho para os meus pés e pergunto-lhe desde quando é que alguém que trabalha na Stock Exchange usa sneakers e jeans em horário laboral? Riu-se e deu-me razão. Demonstrando a sua flexibilidade profissional refez então a pergunta e acentua o como um não-elemento da Stock Exchange. E eu, como disse, encurralado, lembrei-me de um par de bacoradas que li na banca de jornais do indiano e lá respondi ao cliché.
Antes de despedir-se ainda me perguntou se o sumo era de morango.
Disse-lhe que sim.
Stock Exchange? Eu? Aqui tão sossegado de óculos escuros a ver quem passa? Olho para os meus pés e pergunto-lhe desde quando é que alguém que trabalha na Stock Exchange usa sneakers e jeans em horário laboral? Riu-se e deu-me razão. Demonstrando a sua flexibilidade profissional refez então a pergunta e acentua o como um não-elemento da Stock Exchange. E eu, como disse, encurralado, lembrei-me de um par de bacoradas que li na banca de jornais do indiano e lá respondi ao cliché.
Antes de despedir-se ainda me perguntou se o sumo era de morango.
Disse-lhe que sim.
1.5.08
as respostas múltiplas
E perguntaram-me: a psicologia masculina é mesmo assim? Um homem olha para outra mulher por que a mulher dele é olhada por outros homens?
Claro que não, é uma das respostas. Geralmente olha porque a outra mulher merece que se olhe para ela (como a Michelle Monaghan por exemplo) ou porque é mesmo impossível não olhar. Mas também é sabido que um homem olha para todas. As bonitas porque são bonitas e as feias porque são feias, o que faz com que todos os homens olhem para todas as mulheres. O Molière já falava nisso.
Por vezes, é outra das respostas. Pode olhar para marcar a sua presença viril perante os outros galos da capoeira. Parece complexo? Nada disso, é mais do género: olha lá à vontade que eu sou homem que chegue para a tua provocação e desconsideração de galares a minha mulher nas minhas barbas e até provo isso demonstrando o meu desinteresse no teu interesse e desviando a atenção para algo que tu, que não vales muito, ainda nem estás bem a ver o que é. Nestes casos de exacerbado machismo, chamemos-lhe assim, a mulher é vista unicamente como um objecto. O Lipovetsky já falava nisso.
Sim, a penúltima das respostas. Pode acontecer que o homem seja tão inseguro que procure dessa maneira uma vingança infantil pelo facto de a sua mulher despertar interesse nos outros e pensa que assim, demonstrando ele interesse exagerado nas outras, paga o "despeito" na mesma moeda. Coisa totalmente obtusa, diga-se de passagem. O Henry Miller já falava nisso.
Nunca. Um homem nunca olha para outra mulher se estiver acompanhado. Excepto, naturalmente, se for um ordinário. A minha Avó já falava nisso.
E depois, para concluir, há outro factor importante: a idade. A dele e a dela. E a idade, ao que parece, faz com que a resposta varie. O Bukowski já falava nisso.
Claro que não, é uma das respostas. Geralmente olha porque a outra mulher merece que se olhe para ela (como a Michelle Monaghan por exemplo) ou porque é mesmo impossível não olhar. Mas também é sabido que um homem olha para todas. As bonitas porque são bonitas e as feias porque são feias, o que faz com que todos os homens olhem para todas as mulheres. O Molière já falava nisso.
Por vezes, é outra das respostas. Pode olhar para marcar a sua presença viril perante os outros galos da capoeira. Parece complexo? Nada disso, é mais do género: olha lá à vontade que eu sou homem que chegue para a tua provocação e desconsideração de galares a minha mulher nas minhas barbas e até provo isso demonstrando o meu desinteresse no teu interesse e desviando a atenção para algo que tu, que não vales muito, ainda nem estás bem a ver o que é. Nestes casos de exacerbado machismo, chamemos-lhe assim, a mulher é vista unicamente como um objecto. O Lipovetsky já falava nisso.
Sim, a penúltima das respostas. Pode acontecer que o homem seja tão inseguro que procure dessa maneira uma vingança infantil pelo facto de a sua mulher despertar interesse nos outros e pensa que assim, demonstrando ele interesse exagerado nas outras, paga o "despeito" na mesma moeda. Coisa totalmente obtusa, diga-se de passagem. O Henry Miller já falava nisso.
Nunca. Um homem nunca olha para outra mulher se estiver acompanhado. Excepto, naturalmente, se for um ordinário. A minha Avó já falava nisso.
E depois, para concluir, há outro factor importante: a idade. A dele e a dela. E a idade, ao que parece, faz com que a resposta varie. O Bukowski já falava nisso.
30.4.08
esquerda caviar e psicologia masculina

Repare-se bem no olhar de Vittorio de Sica. De queixo para trás e olho pesado a galar uma mulher que passa enquanto vai acompanhado com outra. Este fotograma de um documentário sobre o cineasta italiano resume algo do que se pode dizer sobre de Sica enquanto homem. O actor prematuro transformado com os anos em realizador mediático, estandarte (entre outros e por sorte, parece-me) do neo-realismo italiano, era a personificação da dolce vita à face da terra.
Mas salta-me uma pergunta: e se o olhar de Sica não for necessariamente interessado na mulher que passa mas apenas uma distracção defensiva inconsciente pois sabe que a bombshell que o acompanha está também por sua vez a ser galada pelo grupo de homens novos à sua frente?
[pausa]
A resposta: não, de Sica está mesmo interessado na mulher que passa porque afinal não é um grupo de homens novos mas apenas um homem novo no meio de mulheres e de outros ainda mais velhos do que ele e com ar de personagens dos seus neo-realismos.

Dandy, narciso, charmoso, bem-parecido, jogador compulsivo e apoiante do Partido Comunista Italiano. A seu favor, um verdadeiro caso da gauche-caviar. Comparativamente todos os outros, contemporâneos ou não, não passam de maus exemplos.
E uma torção de tronco destas não é para qualquer um.
27.4.08
o universo desconhecido
É amplamente sabido o quão perigoso pode ser para um homem a sua ingerência em assuntos do universo feminino. Por isso, sabendo que a sensatez vale ouro e as figuras-de-urso não pagam contas, faz-se o esforço para responder monossilabicamente; ou pelo menos evita-se mandar postas de pescada ao ar. Contudo, nem sempre é assim de fácil. Como ontem, por exemplo, que enquanto me mostravam umas unhas pintadas de um branco meio transparente me perguntavam se eu sabia que cor era aquela. Ora bem, eu sei que sou um canastrão mas não sou daltónico e por isso a resposta não seria obviamente o 'branco'. Dei ares de eloquência e arrisquei 'pérola' —não— seguidamente tentei 'marfim' —também não— e por último fui ainda mais piroso e soltei 'porcelana chinesa'. Tão-pouco acertei. A resposta correcta era 'nude attitude'.
26.4.08
duas italianas

Numa conversa telefónica o meu Pai comenta-me que para ele a Anna Magnani é a actriz mais brechtiana do cinema italiano. Prontamente acrescenta que também gosta muito da Silvana Mangano. Eu compreendo bem estas coisas: é que uma era tão boa actriz que inspirava respeito e a outra claramente inspirava respeito por ser tão boa.
25.4.08
pelas costas

Num, o momentum é previamente preparado: a velocidade das imagens torna-se mais lenta, a banda sonora intensifica o dramatismo da cena; tudo conduz ao auge (a Morte) enfatizando assim o martírio. No outro, sem música envolvente, é uma rajada seca, cruel, inesperada, meio disfarçada pelos gritos da multidão. Não há comparações, excepto que —em ambos— os tiros são pelas costas.
É pessimismo declarado, eu sei. Não resisti.
atmosfera
Até estava para transcrever um poema do Bukowski sobre a mulher e os telefonemas e que termina com um "I am just the poor son-of-a-bitch who has to pay the telephone bill" mas achei melhor não o fazer. Está um tempo porreiro, a primavera sente-se no ar, anda para aí tudo apaixonado e o camandro e eu não quero parecer a besta-quadrada do costume. Também pela mesma razão não vale a pena estar para aqui a dissertar sobre um livreco que ando a ler sobre o Neo-realismo Italiano e que por causa dele tive de ir a correr comprar o 'Roma Città Aperta' do Rossellini para ver a Anna Magnani levar um tiro pelas costas. Não, nada de pessimismo e obscuridade. A atmosfera não está para momentos depressivos.
23.4.08
'o sexo e a cidade'
Se começou por ser um reflexo de um determinado grupo, retratando fielmente as idiossincrasias de um padrão social encaixado no Espaço & Tempo, com os anos tornou-se num case-study e posteriormente num exemplo a larga escala. A heterogeneidade física e psicológica das personagens é unida pela sua homogeneidade social —o estrato é o mesmo. E com base neste pressuposto é muito interessante ver como os diversos estratos sociais reagiram à adaptação da ficção. Em NY, há claramente nos grupos femininos uma inconsciente (ou não) tendência para a identificação com uma das quatro protagonistas; ou pelo menos uma aproximação.
**
Assim, é dito que ‘Sex and the City’ funciona como uma ferramenta de estudo antropológico: primeiramente pela fidelidade do modelo na análise da realidade e posteriormente pela capacidade do próprio modelo ficcional em redefinir e moldar o entorno real, ou seja, um ciclo de uma realidade passada transformada em ficção que por sua vez influencia uma realidade futura. Por isso, apesar do hiato entre ambos a vários níveis, 'Sex and the City' está para a televisão nos anos noventa como por exemplo o neo-realismo italiano está para o cinema no período do pós-guerra. São produtos de estudo de uma apurada observação e crítica social e que nos chegam, enquanto espectadores, na forma de entretenimento.
Seja heavy ou light.
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Não é Malinowski, dirão os puristas, mas para os dias de hoje serve.
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Assim, é dito que ‘Sex and the City’ funciona como uma ferramenta de estudo antropológico: primeiramente pela fidelidade do modelo na análise da realidade e posteriormente pela capacidade do próprio modelo ficcional em redefinir e moldar o entorno real, ou seja, um ciclo de uma realidade passada transformada em ficção que por sua vez influencia uma realidade futura. Por isso, apesar do hiato entre ambos a vários níveis, 'Sex and the City' está para a televisão nos anos noventa como por exemplo o neo-realismo italiano está para o cinema no período do pós-guerra. São produtos de estudo de uma apurada observação e crítica social e que nos chegam, enquanto espectadores, na forma de entretenimento.
Seja heavy ou light.
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Não é Malinowski, dirão os puristas, mas para os dias de hoje serve.
20.4.08
as pessoas, os cães, os cães e as pessoas
Escrevo estas linhas do banco de jardim de Tompkins Square Park, ao lado de casa, e agradeço as vantagens de uma cidade wireless. Os primeiros dias de Primavera trouxeram para a rua todos os nova-iorquinos. O parque está sobrelotado com pessoas dos mais variados géneros e cães das mais absurdas raças. Passam por mim personagens características da zona, como o porto-riquenho da bicicleta de vinte buzinas, o bêbado da rasta até ao joelho e a velhota dos oito cães. Os miúdos revivalistas dos anos oitenta ocupam uns bancos ao lado do meu e no seu rádio de pilhas tocam êxitos dos Duran Duran, Spandau Ballet, Billy Idol e das Banshees. Trazemos óculos iguais, reparo, esses clássicos wayfarer negros; os deles novos e os meus dos tempos de adolescente quando eles ainda usavam fraldas. Na esquina dois tipos tocam saxofone e um bulldog com uma gravata ao pescoço (ou naquilo que parece ser o pescoço de um cão que desde o século XIX não tem pescoço) recolhe dinheiro aos ouvintes numa cesta presa ao focinho. As árvores estão em flor e essas coisas todas que há para dizer e tal. E sim senhora, tem tudo muita piada, mas agora vou para casa porque as alergias não me deixam parar de espirrar.
19.4.08
18.4.08
harlem love
Ontem, na minha espelunca favorita do Harlem, entre fumo e risos Dee Dee Michels cantava qualquer coisa acerca do 'amor'. Não sei bem o quê. Como não acredito peva, tentei não prestar muita atenção.
**
As horas de almoço passadas diariamente na escadaria do Federal Hall, ao lado da estátua do George Washington, farão com que a médio prazo apareça aos bocados em todos os álbuns de fotografias japoneses. Uma perna aparecerá atrás do casal Yashimoto, outra da filha dos Fuschida, um olhar descontraído para as pernas da vizinha do lado nas dos Ichimonji e por último, para embaraço total, de palito ao canto da boca na chapa tirada pelo senhor Makiguchi. Uma vergonha; mas mesmo assim uma sorte que as provas fiquem pelo Japão.
17.4.08
o cinema imita a vida

"We will always be able to make films. When I saw 'Viaggio in Italia', I knew you could shoot a two-hour film with a couple in an automobile. I've never done that, but I've always kept it as security."
JLG em 'The Future(s) of Film, Three Interviews, 2000/01'.
16.4.08
**
Depois do que vimos na trilogia Samurai de Hiroshi Inagaki e na extensa colaboração com Kurosawa, chamar 'outro cão raivoso' a Mifune é insultuoso. Toshiro Mifune é o cão raivoso. Prontamente seguido de Klaus Kinski, o número dois universal —embora alguns achem, o que até é legítimo, que Kinski vem em primeiro. Enfim, opiniões.
o exercício
"Tire o texto e repare no que fica. Não há nada mais na TV. Quando vejo televisão faço-o sem som. Sem som vêem-se os gestos, vêem-se as rotinas das jornalistas e dos apresentadores, vê-se uma mulher que não mostra as pernas, move os lábios, faz a mesma coisa repetidamente e ocasionalmente é interrompida pela chamada reportagem no local. Ela será a mesma amanhã, apenas o texto será diferente."
Godard, numa entrevista em 2000, na qual mais à frente se pode ler que nunca compreendeu por que 'Le Mépris' é tão apreciado. Eu também não, mas arrisco que talvez o seja pelo 'Brevemente neste ecrã, a mulher, o homem, Itália, o cinema —com Brigitte Bardot e Michel Piccoli— o Alfa-Romeo, o musical, a estátua grega, o revólver —o novo filme tradicional de Jean-Luc Godard— a chapada, o quarto, o beijo, a casa-de-banho —com Jack Palance, Georgia Moll e Fritz Lang— o louco, a estrela, o ancião, o mar —baseado num romance de Alberto Moravia— a ternura, a vingança, as carícias, o sofrimento —filmado com toda a magia de FranceScope e Technicolor— a escada, o passeio, o livro, o barco, uma trágica história de amor num cenário maravilhoso, as disputas, o sol, a traição, a morte, uma maravilhosa história de amor num cenário trágico, o amor, a obscuridade, os mal-entendidos, a beleza fatal, fatal.'
**
A Casa, acrescenta o jmac. Sim, sem dúvida a casa.
Godard, numa entrevista em 2000, na qual mais à frente se pode ler que nunca compreendeu por que 'Le Mépris' é tão apreciado. Eu também não, mas arrisco que talvez o seja pelo 'Brevemente neste ecrã, a mulher, o homem, Itália, o cinema —com Brigitte Bardot e Michel Piccoli— o Alfa-Romeo, o musical, a estátua grega, o revólver —o novo filme tradicional de Jean-Luc Godard— a chapada, o quarto, o beijo, a casa-de-banho —com Jack Palance, Georgia Moll e Fritz Lang— o louco, a estrela, o ancião, o mar —baseado num romance de Alberto Moravia— a ternura, a vingança, as carícias, o sofrimento —filmado com toda a magia de FranceScope e Technicolor— a escada, o passeio, o livro, o barco, uma trágica história de amor num cenário maravilhoso, as disputas, o sol, a traição, a morte, uma maravilhosa história de amor num cenário trágico, o amor, a obscuridade, os mal-entendidos, a beleza fatal, fatal.'
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A Casa, acrescenta o jmac. Sim, sem dúvida a casa.
14.4.08
13.4.08
talvez por soar a algo exótico
Dizem-me que de tudo, a parte da condessa eslava é a mais inverosímil. Talvez. Certo é que às vezes a verdade é ela própria a mais inverosímil também. Sobretudo se parecer um anacronismo.
12.4.08
11.4.08
a midnight valium for a good night sleep
Como Flitcraft, cuja história Hammett conta em 'The Maltese Falcon', também ele um dia quis largar tudo e fugir. Deixou a mulher e o filho com lábio leporino, a sogra surda, os cães, as criadas e os pretos; as armas de caça e as camisas de caqui. Fugiu sem saber do quê, talvez do tamanho do Sol, que ao princípio tanto o seduziu e que acabou por lhe ser tão insuportável como uma amante exigente e gasta. Juntou dois trapos ao cair da noite e saiu a pé, mato fora a rasgar as canelas, avistando ao longe fogueiras e reconhecendo ecos de cânticos tribais. Pensou nas negras no pavilhão de caça, longe dos olhares familiares e dos remorsos conjugais. Às duas e três, de corpos suados enrolados no seu e em como apenas nesses momentos encontrou o que pensou ser felicidade. Enganou-se, talvez, e o vazio fê-lo repetir o acto ate à exaustão pois em África o calor e o sexo andam sempre de mãos dadas. Rumou para longe; pensou em Marselha. Nos bares do porto, na frescura da beira-mar, nas americanas, nas viúvas, nos gigolôs, nos paneleiros, nas esplanadas, no Pastis com gelo e no bas-fond povoado pela miséria dos intelectuais de um Maio revoltado lado a lado com a dos marinheiros.
Acabou em Nova Iorque, décadas depois, numas águas furtadas na Village, vivendo como professor de esgrima, amante de uma condessa eslava e contando a sua história a tipos como eu que um dia também pensaram em fugir.
Acabou em Nova Iorque, décadas depois, numas águas furtadas na Village, vivendo como professor de esgrima, amante de uma condessa eslava e contando a sua história a tipos como eu que um dia também pensaram em fugir.
10.4.08
our man in vienna
"In Italy, for thirty years under the Borgias, they had warfare, terror, murder, bloodshed — and they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci and the Renaissance. In Switzerland, they had brotherly love, they had five hundred years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock."
Orson Wells como Harry Lime, o Terceiro Homem, num filme de Carol Reed com guião de Graham Greene.
Orson Wells como Harry Lime, o Terceiro Homem, num filme de Carol Reed com guião de Graham Greene.
9.4.08
our man in paris

Talvez ainda dos tempos daquela Paris das entre-guerras, onde os artistas se misturavam com as putas, as aristocratas fodiam com os negros, os alienados se afundavam nas casas de ópio chinesas e os escritores norte-americanos viviam embriagados pela vie maudite; da Paris onde o jazz à noite renascia o homem primitivo e sexual que durante o dia vivia camuflado na moralité de la bourgeoisie; da Paris onde todos passavam pela Rive Gauche querendo mais do que o dinheiro podia comprar. Talvez ainda dos tempos daquela Paris que no dia da vitória dos Aliados testemunhou nas suas ruas o amor entre desconhecidos, intoxicados pela felicidade e pela joie-de-vivre, e onde mulheres se entregaram a homens em becos húmidos em troca de beijos mal-pagos e gemidos apressados. Talvez ainda dos tempos daquela Paris, poderia pensar. Mas não, 'Our Man in Paris' foi gravado em 1963.
8.4.08
dos testemunhos
As histórias do 11 de Setembro, com o pânico, o horror, o desespero e por fim a coragem e a solidariedade como protagonistas, ganham outra dimensão quando contadas na primeira pessoa. Num sábado à tarde, em frente àquilo que um dia foi o World Trade Center.
7.4.08


Desde que um livro seu me caiu nas mãos que tem sido uma das interessantes descobertas locais. Refiro-me a Jessica Dimmock. Foto-reportagem clássica, como convém, sem o carácter mediático do fotojornalismo ou o cuidado exigido à Fine Art Photography. O trabalho de Dimmock é como os próprios assuntos que aborda: há sujidade, movimento, abandono, escuridão e um rasgo de pessimismo, esse legado tão característico da escola Arbusiana.
E se notamos, pelo tema, esta óbvia referência clássica norte-americana, também as contemporâneas são perceptíveis: de James Nachtwey a Mary Ellen Mark, passando por gurus do género que Dimmock tende a explorar como Nan Goldin ou Boris Mikhailov. Na sua (até agora) breve carreira o elemento comum (ou a tendência do género) é o interesse em faixas marginais da sociedade — dos junkies de 'Ninth Floor' aos travestis nepaleses. Nos trabalhos anteriores compreende-se que Dimmock ainda buscava o seu tema de fundo, focando-se (ou perdendo-se) em detalhes que resultam como dados supérfluos à narrativa visual.
Paralelamente ao seu fascínio pela marginalidade há uma intenção de registo pelos ritos transformativos dos seus intervenientes, seja através da representação ou mesmo da autodestruição. E uma vez mais podemos claramente falar de referências, como a de Cindy Sherman em 'Anna, a go-go dancer'.
5.4.08
dos pactos-de-sangue
Lembro-me de uma noite dos tempos de liceu em que fiz um pacto-de-sangue a jurar amor eterno. Quinze dias depois acabou-se o namoro e foi cada um para seu lado. Eu com um par-de-cornos, ela com o professor de Geografia.
uma de cada vez
Há uns quinze anos uma revista do Expresso publicava um inquérito informal, antecedido por um artigo acerca da vida sexual de personagens históricas, sobre "o número de mulheres que passaram pela sua cama". Alguém, não me lembro quem, respondeu que pela sua, passara uma. Resposta igualmente elegante foi a de Miguel Sousa Tavares, creio que ele (mas não estou certo), que respondeu simplesmente "uma de cada vez."
4.4.08
a midnight valium for a good night sleep
Acordo demasiadas horas antes de o dia começar; sem saber se pelo sabor metálico que os antibióticos me deixam na boca ou se pelo barulho da chuva que teima em rachar a janela. Não me atrevo a acender a luz e conto carneiros que saltam cercas de madeira branca. Seis horas de diferença para Barcelona, penso. Agarro no telefone. E então a vida repete um filme que repete aquilo que um dia foi também uma vida.
Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout.
Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout.
3.4.08
bactérias e outras que tais
Por vezes os nossos maiores inimigos estão dentro de nós. Refiro-me somente aos microrganismos.
Pois nem vale a pena trazer para a conversa as chamadas deficiências de carácter.
Pois nem vale a pena trazer para a conversa as chamadas deficiências de carácter.
a cidade, os riscos e o neo-marxismo
"A cidade escreve-se a ela própria nas suas paredes e ruas. Mas essa escrita nunca se completa. O livro nunca termina e contém inúmeras páginas em branco ou rasgadas. Não é mais do que um rascunho; será mais uma colecção de riscos do que escrita."
A poesia em 'La Révolution Urbaine' de Henri Lefebvre; um, segundo lhe chamam, neo-marxista.
A poesia em 'La Révolution Urbaine' de Henri Lefebvre; um, segundo lhe chamam, neo-marxista.
1.4.08
no seu melhor
Igualmente bom ao da resposta a JSMelo, é o post sobre 'A Lei do Divórcio':
"Por outro lado, não me parece prudente que se suponha que o casamento se baseia no «afecto». O casamento baseia-se no afecto 1) há pouco mais de um século 2) durante uns anos." Ou também: "Ainda hoje o «amor» não é um requisito: todos conhecemos homens e mulheres que se casaram por outras razões". E entre as referidas destaco a sublime "vingança face a terceiros".
Pedro Mexia, claro está.
"Por outro lado, não me parece prudente que se suponha que o casamento se baseia no «afecto». O casamento baseia-se no afecto 1) há pouco mais de um século 2) durante uns anos." Ou também: "Ainda hoje o «amor» não é um requisito: todos conhecemos homens e mulheres que se casaram por outras razões". E entre as referidas destaco a sublime "vingança face a terceiros".
Pedro Mexia, claro está.
31.3.08
o aviso
upon your darkened red mouth wild birds scream / and bowls of fish swim their jungles, / a China morning, a withered moon of axes and witches; / you desire a man-plagued sun and strands of fiber calling my name; / beware, I am not your silly husband, / I am your silly lover / and of all your silly lovers, / the last one here.
'warning', de Charles Bukowski.
'warning', de Charles Bukowski.
28.3.08
fuckin' nasty
Convidam-me para ver em Brooklyn um roller-derby da Gotham Girls League. Descrevem-me as regras do jogo e as motivações; os casos históricos e os truques sujos. A narradora revela-me o seu nick de patinadora demoníaca —Aunti Christ— e imagino-a com a sensual tatuagem de yakuza que lhe cobre todo o braço direito aos empurrões na pista às adversárias. O roller-derby é famoso na América. Mas só para duronas.
social
O médico assegura-me que as próximas duas semanas a antibióticos, dieta cuidada e proibição de álcool em nada afectarão a minha vida social. Depois asseguro eu ao médico que não há qualquer problema. Sem álcool não quero vida social.
27.3.08
da gastrite
Enquanto o Dr. Dhalsati dissertava sobre a Helicobacter pylori que causa a gastrite eu pensava no bairro de Darukhana, em Bombay East, onde as crianças em farrapos brincavam na terra ao lado da merda humana. Pensava nas mulheres atrás delas que se prostituem à noite na Falkland Road e cujos corpos se tornaram disformes por anos de maus-tratos, sordidez e privação. Pensava na margem do rio Mahin e nos homens que defecavam alinhados na linha de comboio indiferentes a quem passava. Pensava em toda a miséria e podridão que vi em Bombaim; sobretudo da segunda vez, na qual me aventurei arrabaldes adentro por dias a fio. No final da conversa o médico acabou por comentar que provavelmente apanhei a Helicobacter pylori na Índia. Não foi novidade para ninguém.
25.3.08
23.3.08
dos amigos
É sempre bom receber a visita de amigos. Sobretudo daqueles que se estão nas tintas para o habitual périplo turístico nova-iorquino: a visita ao MoMA e ao Met, o brunch no Pastis, as lojas da Quinta Avenida, o gospel no Harlem ou ir cortar o cabelo à Greenwich Village. Ao contrário, preferem acompanhar-nos no jogging diário ao longo do East River e ver do lado de Brooklyn, iluminado pelo sol de nascente, o recorte da velha fábrica de açúcar; preferem um jogo de gamão numa decadente casa-de-chá em Chinatown; preferem o diner escuro e o carrot-cake ao restaurante no Soho com o coulant de chocolate. E acima de tudo não se importam de perder horas numa livraria de bairro. Isso são os verdadeiros amigos, aqueles que no fundo são uma extensão de nós próprios.
22.3.08

Vendo-me entusiasmado com o banlieu emprestam-me um ensaio em francês que roça o tema. O título é sugestivo, mas ao fim da oitava página ponho-o de lado e concluo que o meu actual conhecimento do idioma equivale ao que o Açorda, o meu rafeiro alentejano, possuía do alemão. Olho agora para o tecto a pensar que talvez deva deixar NY por uns tempos e vá viver para Paris. Mas nunca antes de o Outono terminar; e para isso ainda falta um bom bocado.
20.3.08
le verlan
Georges Perec foi o responsável pela criação dos diálogos de 'Série Noir' (1979) de Alain Corneau. Ao invés de decidir usar o habitual estilo hardboiled característico das traduções aos noirs made in america, Corneau confiou a Perec a utilização de um calão específico do banlieu dos anos 50/70, le verlan, que funciona com a alteração da ordem das sílabas formando palíndromos. Desta forma destacava-se do calão tradicional, l'argot, trazendo contemporaneidade e acentuando o espírito periférico, suburbano e de cintura operária.
Contudo Perec é essencialmente conhecido pela sua ligação ao grupo Oulipo e pelos seus romances lipogramáticos 'La Disparition', no qual consegue a proeza matemática de não utilizar a letra 'e' em trezentas páginas e posteriormente 'Les Revenentes', onde a única vogal utilizada é exactamente a 'e'. Não li nenhum dos dois, o que li foi este curioso detalhe acerca de Perec.
Contudo Perec é essencialmente conhecido pela sua ligação ao grupo Oulipo e pelos seus romances lipogramáticos 'La Disparition', no qual consegue a proeza matemática de não utilizar a letra 'e' em trezentas páginas e posteriormente 'Les Revenentes', onde a única vogal utilizada é exactamente a 'e'. Não li nenhum dos dois, o que li foi este curioso detalhe acerca de Perec.
19.3.08
o noir suburbano

Patrick Dewaere, o protagonista de 'Série Noir' (1979) de Alain Corneau, a quem o crítico Gilbert Rochu apelidou de Bogart de banlieu.
porque a burguesia detém o poder
Muitos cineastas franceses —do pós-guerra ao Maio de 68— cresceram e viveram com uma forte influência da cultura norte-americana. Exemplo notório é obviamente Jean-Pierre Melville que alterou o apelido em homenagem ao escritor nova-iorquino. Mas há muitos mais. Alain Corneau, a par de Godard ou Truffaut, foi um deles. Em 1979 respondia provocatoriamente numa entrevista ao 'L'Avant-Scène du Cinéma' sobre a sugestão de o seu trabalho conter a tal influência da cultura americana:
'Só existe uma cultura, que é a cultura burguesa. Porque a burguesia detém o poder.'
'Só existe uma cultura, que é a cultura burguesa. Porque a burguesia detém o poder.'
das dores
Estar há dois dias agarrado ao estômago cheio de dores, com uma gastrite que até me levou ontem ao Downtown Hospital, faz-me finalmente descodificar a causa para o humor feminino naquela altura do mês. Assim, para a próxima vez que ouvir as repetidas queixas mensais, juro que não volto a responder vagamente enquanto continuo a ler o jornal. Palavra de canastrão.
17.3.08
16.3.08
como a crise financeira afectou as relações na América
Por causa dos jantares-fora, dos presentes-surpresa & das visitas-aos-sogros-ao-cu-de-Judas, em tempos de poupança namorar sai caro. Os one-night-stand ficam mais em conta. Só custam um cosmopolitan num bar da moda e uma corrida de táxi a caminho de casa. E com um bocado de sorte, se não estiver de chuva, até dá para ir a pé e poupar mais uns tostões.
sexta-feira
O convite do museu dizia performance. Mas no fundo o evento revelou-se uma reunião femininista. Pior, uma festa de fufas. Pior, nenhuma delas gostava de homens. Pior, um grande desperdício.
15.3.08
13.3.08
da atitude
Vejo um anão na rua e apercebo-me que não conheço pessoalmente nenhum anão. Depois reparo bem nele e compreendo que conheço pessoas muito mais pequenas do que um anão.
'the road'
Desde 'The Fixer' de Bernard Malamud que não lia um livro tão pungente e angustiante na ficção americana. Nos dois, embora estruturalmente muito diferentes, assistimos a uma degradação física e mental contínua dos protagonistas mas cuja força interior, instinto de sobrevivência e perseverança —apesar da ideia de Morte e suicídio ser constante— os leva a seguir um último laivo de esperança. Pela derradeira justiça, no caso do Yakov de Malamud, pela promessa de um El Dorado, no caso do homem sem nome de McCarthy. A lição é que o sacrifício compensa, ou não fossem ambos ficção.
9.3.08
it always rains on sunday

'The ex-barmaid, the escaped convict and the detective'.
O brit noir, no Film Forum. Amanhã, Domingo de chuva.
8.3.08
depois, o indulto
Seguindo a lógica de Borges que diz que dois é uma mera coincidência, três uma confirmação, parece-me mais claro do que nunca que se juntaram todas e pediram a Deus a vingança. E o pior de tudo, embora eu continue a persignar-me todos os dias como a minha avó me ensinou, é que acho que Ele lá em cima as ouviu.








